Análise: Como o ‘partido dos  estúpidos’ criou um Donald Trump

Análise: Como o ‘partido dos estúpidos’ criou um Donald Trump

Redação Internacional

03 Agosto 2016 | 05h00

Max Boot
The New York Times

É difícil saber exatamente quando o Partido Republicano vestiu a carapuça de “partido dos estúpidos”.
Não se pode acusar de estupidez proeminentes republicanos da antiga como Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Elihu Root e Charles Evans Hughes.

Mas nos anos 50 ficou “decidido” que os “inteligentes” estavam com Adlai Stevenson e os “idiotas”, com Dwight Eisenhower – uma visão reforçada no livro Anti-Intellecualism in American Life, de Richard Hofstadter. O livro põe em contraste Stevenson, “um político de mente e estilo fora do comum, que sensibilizou mais o meio intelectual do que qualquer outro na história recente”, e Eisenhower, “uma cabeça convencional e não muito articulada”.

Em lugar de tentar fugir do rótulo de anti-intelectuais, os republicanos o adotaram para seus propósitos políticos. Em seu discurso É hora de escolher, Ronald Reagan disse que a eleição de 1964 (ele apoiava Barry Goldwater) era sobre “acreditarmos em nossa capacidade de nos governar ou abandonarmos a revolução americana e confessarmos que uma pequena elite intelectual, num distante Capitólio, pode planejar nossas vidas melhor que nós mesmos”.

Richard Nixon apelou para a “maioria silenciosa” e os operários, enquanto seu vice-presidente, Spiro T. Agnew, desfechava ataques contra um “núcleo de esnobes frouxos que se dizem intelectuais”. Mais recentemente, numa cerimônia de graduação na Universidade Yale, George W. Bush brincou: “Para aqueles de vocês que se formaram com honrarias, prêmios e distinções, eu digo ‘ótimo’; para os estudantes acostumados com notas baixas, digo ‘vocês também podem ser presidente dos EUA’”.

Muitos democratas levam isso a sério e se orgulham por serem mais espertos do que os incultos republicanos. O fato, porém, é que o anti-intelectualismo assumido pelos republicanos é, em grande parte, uma estratégia. Ou, pelo menos, era.
Eisenhower pode ter desempenhado o papel de ingênuo simpático, mas foi um dos mais bem preparados presidentes dos EUA – um general com conhecimento sem paralelo de segurança nacional. Seu palavreado confuso era mais para preservar um espaço de manobra.

Reagan era chamado de canastrão obtuso, mas passou décadas aprimorando seus pontos de vista políticos e escrevendo os próprios discursos. Nixon pode ser tachado de “ressentido com harvardianos”, mas encarregou da política externa e da doméstica dois professores de Harvard, Henry Kissinger e Daniel Patrick Moynihan.

Não há evidências de que líderes republicanos fossem menos inteligentes que os pares democratas. Durante os anos Reagan, o Partido Republicano ficou conhecido como “partido de ideias”. Intelectuais políticos como George Schultz, Jeane J. Kirkpatrick e Bell Bennett exerceram cargos destacados no governo, tradição que prosseguiu com George W. Bush, amplamente respaldado por nomes como Paul Wolfowitz e Condoleezza Rice.

Mas, em anos recentes, o relacionamento dos republicanos com o campo das ideias foi ficando mais e mais enfraquecido. Isso ocorreu à medida que estrelas do rádio e da TV assumiam o papel de teóricos do movimento conservador anteriormente exercido por acadêmicos. O Tea Party representou uma revolta populista contra o que seus ativistas viam como as elites republicanas de Washington.

Há ainda alguns líderes republicanos intelectuais, exemplificados pelo líder da Câmara, Paul Ryan, que apresentou um competente projeto de orçamento para seu partido. Mas a vibração primária que emana hoje do Partido Republicano é a de uma raiva autodestruidora, irracional, indiscriminada. Essa tendência culmina agora com a indicação de Donald Trump, o candidato à presidência que é o ignorante que seus predecessores republicanos apenas fingiam ser.

Trump não sabe a diferença entre a Força Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária iraniana, e os curdos. Ele não consegue definir a tríade nuclear – o sistema operacional do arsenal nuclear estratégico dos EUA. Até poucas semanas antes do referendo inglês, nunca ouvira falar em Brexit. Acha que a Constituição tem 12 artigos, não 7. Usa um vocabulário de aluno de ensino médio. Esgrima teorias conspiratórias insinuando que o presidente Obama nasceu no Quênia e o pai de Ted Cruz esteve envolvido no assassinato de JFK.

Corre uma piada sobre o Partido Republicano: após décadas fingindo-se de “partido dos estúpidos”, ele acaba de se transformar nisso. No entanto, se um ignorante convicto chegar à presidência, não haverá motivo para piadas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA