Análise: Democrata prevaleceu, mas vencer é outra coisa

Redação Internacional

28 de setembro de 2016 | 05h00

Lucia Guimarães
Nova York

A audiência de 80 milhões bateu recorde e mesmo comentaristas republicanos admitem que uma calma e sorridente Hillary Clinton triunfou, com argumentos, sobre o nervoso Donald Trump.
Em 1979, Dick Cavett, talvez o melhor anfitrião de talk show da TV americana, recebeu a celebrada escritora Mary McCarthy. Perguntou quem, na sua opinião, tinha atenção imerecida nas letras americanas. Arrancou a hoje lendária citação sobre a dramaturga Lillian Hellman, apologista do stalinismo, notória nêmese de McCarthy: Tudo o que Hellman escreve é mentira, incluindo “e” e “o”.

No debate mais assistido da história eleitoral americana, Trump não foi acusado de mentir em artigos e conjunções. Mas sua lista de mentiras, ou, como preferem comentaristas com luvas de pelica, inverdades, é longa. Pela conta do New York Times, 24 mentiras foram proferidas do pódio, de acidentada história como empresário, passando pelo índice de crimes em Nova York, até o arsenal nuclear da Otan.

Mas a pessoa certa sabia que cutucar o candidato republicano com vara longa traria resultados. Hillary foi montando as armadilhas e Trump enfiou o pé em cada uma delas. A partir do momento em que a democrata apontou para o privilégio de berço – Trump recebeu milhões de dólares do pai – e continuou com os canos que ele deu em incontáveis fornecedores e fez uma lista letal do que motiva o empresário a esconder sua declaração de renda, a imagem do “vencedor” foi sendo desconstruída.

Anos de contestação racista da nacionalidade de Barack Obama receberam destaque merecido e Hillary usou as palavras do próprio Trump para mostrar como ele humilha mulheres por sua aparência.

Mas fatos e argumentos racionais não parecem mover as pesquisas. Um em cada cinco americanos continua indeciso e não há indícios de que o debate fez diferença expressiva neste grupo.

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