Análise: Desafio ao jornalismo

Análise: Desafio ao jornalismo

Redação Internacional

10 Janeiro 2017 | 05h00

Chris Cillizza
THE NEW YORK TIMES

O discurso de Meryl Streep na cerimônia de entrega do Globo de Ouro na noite de domingo, e a resposta de Donald Trump, já se tornaram um jogo de futebol político. Se você gosta de Trump deve ter odiado o sermão oferecido por uma liberal de Hollywood que apoiou Hillary Clinton. Se não gosta de Trump, achou que Meryl falou a verdade para os poderosos e a reação do presidente eleito mostra tudo o que está errado com relação à sua ascensão à Casa Branca.

Essa reação partidária quase instantânea ao discurso da atriz obscurece a frase mais importante do seu discurso: “Precisamos de uma imprensa íntegra que faça os poderosos responderem por seus atos e os repreenda a cada desmando.”

HFPA100. Beverly Hills (United States), 09/01/2017.- A handout photo made available by the Hollywood Foreign Press Association (HFPA) on 09 January 2017 shows Meryl Streep accepting the Cecil B. DeMille Lifetime Achievement Award during the 74th annual Golden Globe Awards ceremony at the Beverly Hilton Hotel in Beverly Hills, California, USA, 08 January 2017. (Estados Unidos) EFE/EPA/HFPA / HANDOUT ATTENTION EDITORS: IMAGE MAY ONLY BE USED UNALTERED +++ MANDATORY CREDIT ++ HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES/NO ARCHIVES

Em discurso na premiação do Globo de Ouro, Meryl Streep faz críticas a Trump. (Foto: EFE)

Trump está certo ao afirmar que Meryl foi uma forte partidária da sua oponente. E, quando ela diz que a mídia tem de repreendê-lo “a cada desmando”, provavelmente não é o que diria se Hillary tivesse sido eleita. Mas a primeira parte da sentença, “precisamos de uma imprensa íntegra que faça com que os poderosos respondam por seus atos”, é o tipo de coisa que todos os que almejam uma democracia saudável devem aplaudir.

O mais triste da eleição de 2016 – e foi o auge de algo que já vinha se verificando cada vez mais nas eleições presidenciais anteriores –, foi a tentativa quase constante de desqualificar a imprensa, sugerir que a mídia escolheu um lado ou o outro e, portanto, não merece confiança. Trump vilipendiou e desumanizou a mídia como nenhum outro candidato na história moderna.

Desde a insistência em dizer que a mídia “era formada pelas mais desonestas pessoas” até seus esforços quase constantes com o objetivo de afirmar que jornalistas estavam fabricando notícias para prejudicá-lo, Trump se empenhou de modo implacável para convencer a população de que a mídia era tendenciosa.

Forças aliadas a Hillary também fizeram sua parte e continuam fazendo. A ideia de que sua decisão de criar um servidor de e-mails privado quando era secretária de Estado foi um assunto absurdo coberto pela mídia apenas porque não gostava de Hillary foi o exemplo mais claro.

O fato é que agora a mídia registra quedas recordes em termos de confiança. Somente 8% das pessoas disseram confiar “muito” nos jornais, nos noticiários da TV e nas notícias na internet, segundo a mais recente pesquisa Gallup.

Não há dúvida de que a mídia não está em uma época de glória. Por isso, temos parte da responsabilidade pelo problema da confiança. Mas não se deve subestimar o prejuízo que a imagem sofreu com tentativas constantes, para ganhos políticos, de desqualificar e deslegitimar a prática do jornalismo.

Voltemos à frase. “Precisamos de uma imprensa íntegra para fazer os poderosos responderem por seus atos”. Sim, precisamos. Vocês podem odiar a mídia e não confiar mais nela. O que nunca deveriam desejar é a morte, o desaparecimento ou a diminuição do jornalismo.

Já vimos que o poder não submetido à vigilância é desenfreado. Se vocês gostam da mídia em geral, devem apoiar ao máximo as pessoas que são pagas para checar as promessas feitas pelos políticos, aqueles que os cercam e as medidas que decidem adotar. Sem tal controle, o poderoso torna-se mais poderoso e o impotente tem cada vez menos condições de fazer alguma coisa a respeito.

Essa é uma realidade bipartidária. A capacidade de protestar contra a mídia é um luxo. Muitos dos que se queixam dela gostarão muito menos de um mundo sem uma imprensa livre e independente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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