Análise: Existe vida após Donald Trump?

Análise: Existe vida após Donald Trump?

Num mundo pós-Trump, os republicanos precisam se perguntar se o seu partido será caracterizado por suas aspirações ou por seus ressentimentos

Redação Internacional

08 de novembro de 2016 | 05h00

Peter Wehner*
The New York Times

A poucas horas da eleição, republicanos como eu se defrontam com uma triste verdade: a campanha presidencial de 2016 revelou aspectos perturbadores e sombrios não apenas em relação a Donald Trump, mas também ao partido que o nomeou seu candidato. E a renovação começa – mas não termina – com o autoexame.

As forças que impulsionaram a ascensão de Trump têm de ser enfrentadas e derrotadas. Não será fácil, já que dezenas de milhões de americanos votarão nele e acreditam sinceramente no candidato. Mas se essas forças não forem derrotadas, o que se verificou este ano vai se repetir muitas vezes e o Partido Republicano continuará a causar grandes danos à nossa República.

Donald Trump makes his entrance at a campaign event at the Robarts Arena in Sarasota, Fla., Nov. 7, 2016. (Damon Winter/The New York Times)

Donald Trump faz campanha em Sarasota, Flórida. Foto: Damon Winter/The New York Times

Como um dia Margaret Thatcher afirmou, primeiro você vence a discussão e depois ganha a eleição. Um dos aspectos que me atraíram para o Partido Republicano, no início dos anos 80, foi o fato de ser um partido de ideias, um novo experimento de governo. Mas, em algum momento, ao longo do caminho, um grande número de republicanos passou a não dar mais valor às ideias sérias.

Por exemplo, em 2013, o governador Chris Christie, de Nova Jersey, um dos mais enfáticos partidários de Trump, referindo-se a seus colegas republicanos, declarou o seguinte: “Temos um número grande demais de pessoas menos interessadas em vencer uma eleição e mais em ganhar uma discussão.”

Indicar o momento exato em que essa perda de valores ocorreu é difícil, foi um processo gradativo. E a personificação disso é Sarah Palin, que começou sua carreira como governadora republicana relativamente convencional, talvez medíocre, e se destacou como candidata a vice-presidente de John McCain em 2008. Um partido que indica Palin a vice-presidente e Trump à presidência está em guerra com a razão.

No decorrer dos anos, inúmeros republicanos passaram a subestimar o ofício de governar. Adotaram um estilo de política caracterizado pela incessante militância, intemperança e uma profunda hostilidade a qualquer acordo e moderação.

Que um demagogo como Trump surja quando existe muita frustração entre americanos que acham que seu sofrimento é ignorado não é algo novo. E é por essa razão que o grande pecado do Partido Republicano não foi a indicação de Trump por uma maioria de votos. Foram as pessoas que conheciam melhor a situação e se uniram a ele quando se tornou o candidato.

No momento, o partido enfrenta uma crise. Se Trump for derrotado, temos de enfrentar o desafio de uma gigantesca reformulação. Políticas que promovam o crescimento econômico, a mobilidade social e maior oportunidade são importantes. Mas em alguns aspectos a posição do partido com relação a elas é secundária.

Os republicanos precisam primeiro resolver questões mais fundamentais: o partido escolherá como líderes pessoas que respeitam as instituições e tradições democráticas, ou não? Quem imagina os EUA como uma sociedade acolhedora ou uma sociedade racial e religiosamente fechada? Quem está comprometido em auxiliar ou explorar os mais fracos e vulneráveis? Quem admira ou se opõe a tiranos? Quem respeita a verdade ou a considera apenas um recurso utilitário? Quem execra a ignorância ou a aceita?

Num mundo pós-Trump, os republicanos precisam se perguntar se o seu partido será caracterizado por suas aspirações ou por seus ressentimentos. O partido conseguirá encontrar sua paz interior num país cada vez mais diversificado e não branco?

Imagina que tem a função de sufocar as paixões ou de inflamá-las? Os próximos meses nos dirão o “trumpismo” foi uma anomalia ou será a nova regra do partido que Lincoln ajudou a criar. Claro, se Trump vencer, não será apenas o partido que enfrentará sua hora da verdade. Nossa República também. O que me preocupa muito mais, porque amo meu país muito mais do que amo meu partido. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É MEMBRO DO ETHICS AND PUBLIC POLICY CENTER E SERVIU NOS ÚLTIMOS TRÊS GOVERNOS REPUBLICANOS

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