Análise: O peso da derrota no apelo de Obama por fé na democracia

O presidente usou seu discurso de despedida para acalmar a frustração de seus partidários e mitigar sua inquietação

Redação Internacional

12 Janeiro 2017 | 05h00

Há pouco tempo, Barack Obama esperava usar seu discurso de despedida como presidente para comemorar realizações do governo antes de passar o cargo para uma sucessora democrata. Depois da desconcertante vitória de Donald Trump, o presidente viu-se obrigado a enfrentar uma nova realidade. Acalmar a frustração de seus partidários e mitigar sua inquietação foram a última e inesperada campanha de Obama nos seus dias finais de governo.

Obama subiu ao palco para seu último discurso como presidente, na terça-feira, em meio a uma atmosfera de nostalgia, acompanhado da mulher e filha, do vice-presidente, de um grupo de assessores e um público de 18 mil pessoas.

President Barack Obama delivers his farewell address at McCormick Place in Chicago, Jan. 10, 2017. (Doug Mills/The New York Times)

Obama faz seu discurso de despedida em Chicago. (Foto: Doug Mills/The New York Times)

A recepção calorosa de seu berço político também pode ter servido a um outro propósito: proteger o presidente e seus leais eleitores da dura realidade – a de que não haveria a despedida apoteótica que esperavam até recentemente.

Durante seu discurso, o presidente utilizou palavras de incentivo e pediu aos seguidores que não perdessem a fé na democracia nem desistissem de participar do experimento americano. “Apareçam. Entrem de cabeça. Não desistam”, insistiu.

Para algumas pessoas na plateia, o conselho pode ter caído no vazio. O próprio presidente havia afirmado, quando fez campanha para a candidata democrata Hillary Clinton, que estava otimista quanto às chances dela, pois jamais havia perdido sua aposta na sabedoria do eleitorado americano.

Desde a derrota de Hillary, Obama mudou a retórica, distanciando-se da “urgência do agora”, que animou sua primeira campanha em 2008, para utilizar como referência o que se tornou seu mantra ao se referir à perspectiva de que Trump poderá anular seu legado.

“Os EUA constituem uma história que não é contada de minuto a minuto, mas de geração a geração.” Presidentes com frequência aproveitam discursos de despedida para falar dos desafios futuros e reafirmar valores e ideais americanos, mas o de Obama assumiu um tom mais tenso por suas críticas prévias a Trump.

Ele não criticou o republicano diretamente e procurou acalmar a multidão quando falou sobre a transferência de cargo e começaram as vaias. Obama referiu-se de modo indireto a seu sucessor, reiterando uma advertência que ele já havia feito no ano passado, sobre uma deterioração do que chamou de uma “base comum dos fatos” no debate político do país, que tem acentuado um “partidarismo manifesto”.

Apesar de tudo, o presidente afirmou estar “mais otimista sobre o país do que quando assumiu a presidência pela primeira vez” e foi tomado pela emoção, enxugando lágrimas com um lenço, ao agradecer a sua família, seu gabinete e seus partidários. Concluiu batendo com a mão direita no púlpito, superstição que começou na campanha de 2008.

Desta vez, não foi enfático e urgente, mas brando e atenuado, o gesto final, mais contido, de um presidente que foi o símbolo da esperança, mas sai do cenário nacional num momento de mudanças imprevisíveis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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