Análise: Quando um maluco concorre à presidência dos EUA

Me pergunto se os esforços jornalísticos no sentido de preservar uma cobertura justa não estariam correndo o risco de fazer Trump parecer normal, sem reconhecer abertamente o quanto ele é um candidato anormal

Redação Internacional

16 de setembro de 2016 | 05h00

Nicholas Kristof
The New York Times

Uma das armadilhas mentais em que caímos é enxergar a política por meio de narrativas. Me indago se estaríamos novamente deixando que nosso trabalho coletivo de reportagem alimente percepções equivocadas.

Uma pesquisa da CNN/ORC revelou que, por uma diferença de 15 pontos porcentuais, os americanos consideram Donald Trump um candidato “mais honesto e digno de confiança” do que Hillary Clinton.

Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump

Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump (Foto: REUTERS/Carlo Allegri)

Mas o site PolitiFact mostra que 13% das afirmações de Hillary verificadas foram consideradas falsas ou “mentiras deslavadas”, em comparação com 53% das afirmações de Trump. É claro que Hillary maquia a verdade – mas isso nem se compara ao que Trump faz.

Isso nos traz à espinhosa questão das falsas equivalências: seria irresponsabilidade jornalística citar ambos os lados e deixar que o leitor chegue às próprias conclusões, ainda que um dos lados aparentemente fabrique fatos ou faça comentários absurdos?

Há malucos que acreditam que a Terra é plana, e não merecem ser citados sem explicarmos que essa é uma opinião minoritária. O mesmo vale para um maluco que chegou a afirmar que a mudança climática é uma farsa elaborada pelos chineses, que pediu a proibição da entrada de muçulmanos e disse que vai construir um muro na fronteira, cuja conta será paga pelo México.

É nosso dever diante dos leitores indicar quando estamos escrevendo a respeito de um lunático. Ainda que se trate de um candidato à presidência. Na verdade, especialmente quando se trata de um candidato à presidência.

Assim, me pergunto se os esforços jornalísticos no sentido de preservar uma cobertura justa não estariam correndo o risco de fazer Trump parecer normal, sem reconhecer abertamente o quanto ele é um candidato anormal. Se o público considera Trump mais honesto que Hillary, algo deu errado. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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