Análise: Que uma eleição como esta não se repita

Redação Internacional

09 de novembro de 2016 | 05h00

David Brooks*
The New York Times

Se tivesse de resumir a eleição de 2016 em uma frase, diria que foi uma revolução sociológica, um alerta moral e uma convocação política. Sociologicamente, a disputa nos ensinou como sociedades desmoronam. A campanha de Donald Trump foi uma inundação que arrastou a superfície do solo, ampliando fendas profundas, fraturas e rachaduras.

Somos uma sociedade muito mais dividida do que imaginávamos. Pessoas mais ou menos educadas cada vez mais veem o mundo e votam de maneira diferente. Assim ocorre com homens e mulheres, negros e brancos, nativos e imigrantes, jovens e velhos, da região urbana e da zona rural. Pensamos em democracia como uma batalha de ideias e um processo de deliberação individual, mas neste ano a demografia determina os eventos. As campanhas nos levaram de volta para nossos bunkers tribais. Os americanos estão mais exclusivistas e menos compreensivos uns com os outros.

Hillary-Clinton-e-Donald-Trump_Reuters

Pessoalmente, sempre desdenhei dessa conversa de terceiro partido, especialmente porque as barreiras estruturais são enormes, não importa quão atraentes sejam em teoria. Mas está cada vez mais claro que a necessidade de um terceiro partido se sobrepõe mesmo a barreiras que existem de fato. O Partido Republicano provavelmente continuará sendo um partido da classe operária, defendendo um comércio fechado, fronteiras fechadas e a saída dos americanos do exterior. O Partido Democrata, por outro lado, está cada vez mais dominado pela ala de esquerda de Bernie Sanders, que oferece o próprio populismo.

É necessário criar um partido para os desabrigados. Um partido que se oponha ao populismo tanto quanto os populistas o defendem. Deve ser um partido globalista que patrocine o livre-comércio e se preocupe com aqueles que sofrem em razão dele. Que defenda uma imigração de indivíduos qualificados e, por outro lado, ouça aqueles afetados pela imigração. Não está claro se nossa cultura política produziu indivíduos capazes de exercer a liberdade sabiamente.

Mas cidadania é uma capacidade que pode ser nutrida por um partido que insista na decência de seus candidatos, que exerça a política de maneira honesta e humilde, que fortaleça a confiança e as instituições. Os problemas são mais profundos do que o desemprego e a ameaça do Estado Islâmico. As bases morais e sociais do país enfraqueceram. Ontem, um capítulo repugnante terminou. Comecemos uma vida nova e com um novo partido. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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