Análise: Quem é patriota e quem realmente ama os EUA?

Redação Internacional

30 de julho de 2016 | 05h00

De um lado, a Convenção Nacional Democrata se mostrava uma grande celebração dos Estados Unidos. De outro, o indicado republicano à presidência se agarrava ao óbvio apoio que vem recebendo de Vladimir Putin, voltava a elogiar a liderança do russo, sugeria não ver nada demais na agressão de Moscou russa na Crimeia e pedia a Putin que espionasse para ele, Trump. Não, não é piada.

Sei que muitos republicanos se sentem vivendo uma espécie de surrealismo. Afinal, eram eles que cantavam “EUA! EUA! EUA!”. E não foram eles que passaram anos sugerindo que Barack e Michelle Obama odiavam os Estados Unidos, e poderiam mesmo ter apoiado inimigos do país? Como, então, foram os democratas que acabaram sendo vistos como patriotas?

Os partidos, no entanto, não estão vivendo uma reversão de papéis. O discurso do presidente Barack Obama na quarta-feira foi maravilhoso e inspirado. Mas, na parte em que declarou que “o que ouvimos em Cleveland na semana passada não foi particularmente republicano”, Obama mentiu um pouquinho.

Na verdade, o que se ouviu em Cleveland foi substancialmente republicano; a única diferença é que o disfarce foi menos evidente que o usual. Pois a “incitação ao ressentimentos” denunciada por Barack Obama não começou com Donald Trump; nem o agito de bandeiras dos republicanos tem muito a ver com o verdadeiro patriotismo.

Pensem nisso: o que significa amar os Estados Unidos? Certamente, significa amar o país que de fato temos. Não sei vocês, mas sempre que volto de uma viagem ao exterior meu coração cresce ao ver a alegre variedade de meus concidadãos, tão diferentes na aparência, herança cultural, vida pessoal e, no entanto, são todos eles – todos nós – americanos.

Tribo. Esse amor pelo país não tem de ser (nem deveria) acima de críticas. Mas os erros que vocês constatam, as críticas que fazem, caberiam mais sobre como ainda não chegamos a viver de acordo com nossos ideais. Se o que aborrece vocês for, em vez disso, o fato de que os Estados Unidos não se parecem mais com o que foram (ou como vocês imaginam que foi), então vocês não amam seu país – vocês se preocupam apenas com sua tribo.

E todos os personagens mais influentes da direita são tribalistas, não patriotas.

Tivemos uma demonstração dessa realidade após o discurso de Michelle Obama, no qual ela disse como era maravilhoso ver suas filhas brincando no gramado “de uma casa construída por escravos”. Foi um discurso edificante, sim, uma imagem patriótica, uma celebração de um país que está sempre procurando melhorar e superar seus erros.

Mas muita gente da direita entendeu – especialmente os personagens da mídia que fazem a agenda republicana – como uma agressão aos brancos. “Eles não conseguem parar de falar em escravidão”, reclamou Rush Limbaugh. Os escravos viviam bem, insistiu Bill O’Reilly. “Eram bem alimentados e tinham moradias decentes.” O que os dois disseram, na verdade, é que os brancos são sua tribo e não podem ser criticados.

Essa mesma ânsia tribal certamente influencia a retórica da direita sobre a segurança nacional. Por que republicanos são tão obcecados com a noção de que o presidente tem de usar a expressão “terrorismo islâmico, quando especialistas em terrorismo concordam que isso na verdade fere a segurança nacional ao discriminar muçulmanos pacíficos?

A resposta, diria eu, é que esse tipo de discriminação não é para eles algo secundário, mas o ponto central – tudo gira em torno de traçar uma linha divisória entre nós (cristãos brancos) e eles (todos os demais). Segurança nacional nada tem a ver com a história.

Reputação. O que nos traz de volta à intimidade Vlad-Donald. É notável a afoiteza de Trump em jogar por terra nossa reputação de aliado confiável tão duramente conquistada. Assim como é notável sua estranha clareza ao apoiar as prioridades de Putin – o que contrasta com o caráter vago de tudo o mais que ele diz em política. Trump ainda deu “não respostas” a perguntas sobre seus negócios com oligarcas ligados a Vladimir Putin.

Mas o que mais me choca é o silêncio de tantos republicanos de destaque frente a um comportamento que teriam denunciado como traição se tivesse vindo de um democrata – para não falar do ativo apoio à posição de Trump entre muitos da base republicana.

O que isso nos diz, acho eu, é que todo esse agitar de bandeiras e posição agressiva nada tem a ver com patriotismo. Em vez disso, diz respeito a usar uma suposta fraqueza democrata quanto à segurança nacional como arma para derrotar opositores domésticos e atender aos interesses da tribo.

E agora vem Trump convidando uma potência estrangeira a intervir em nossa política, o que também serve à tribo.
Assim, se parece estranho a vocês que hoje os democratas passaram a ser vistos como patriotas, e os republicanos não mais, é porque vocês não estão prestando atenção. As pessoas que hoje parecem amar os Estados Unidos, sempre amaram; e as que, de repente parecem não ser mais patriotas, nunca foram. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA E PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

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