Análise: Trump e a arte do papo-furado

O magnata usou na arena política tão grandes doses desse produto que é sua marca registrada que o mau cheiro se tornou dominante e insuportável

Redação Internacional

09 Agosto 2016 | 05h00

Fareed Zakaria
The Washington Post

Dias atrás me pediram na CNN que tentasse esclarecer mais um caso em que Donald Trump dissera algo comprovadamente falso e em seguida se explicara com um tuíte cáustico e uma entrevista indignada. Respondi que se tratava de um padrão e havia uma expressão para definir quem costuma fazer isso: “artista do papo-furado (‘bullshit artist’)”. Ganhei aplausos e vaias pelo comentário, vindos de partidários dos dois lados. Mas não usei à toa essa definição. Trump é muitas coisas, algumas sinistras e perigosas, mas no fundo é um artista do papo-furado.

Harry Frankfurt, eminente filósofo da moral e ex-professor de Princeton, escreveu em 1986 um ensaio brilhante intitulado On Bullshit (Sobre o papo-furado). O próprio Frankfurt escreveu, seguindo essa linha, sobre Trump. No ensaio, Frankfurt faz uma distinção crucial entre papo-furado e mentira. “Contar uma mentira é um ato que envolve um foco rigoroso. A intenção é inserir uma falsidade particular num ponto específico para que a mentira realmente exista.”

Mas quem pratica o papo-furado, explica Frankfurt, “não está nem no lado da verdade nem no da mentira. Não se preocupa com fatos … exceto na medida em que reforcem o que ele está dizendo”. Frankfurt diz que o foco do cara do papo-furado “é mais geral que particular”, e ele tem “mais oportunidade de improvisar, enfeitar e imaginar. Trata-se mais de arte do que de habilidade. Por isso ‘artista do papo-furado’ soa como expressão familiar’”.

Essa tem sido a onda de Trump durante toda sua vida. Ele se vangloria – e vangloria, e vangloria… – de seus negócios, seus edifícios, seus livros, suas mulheres. Muito disso é uma mistura de hipérbole e falsidade. E, quando é descoberto, comporta-se como aquele cara que fica discursando no bar e, confrontado com a verdade, responde rapidamente: “Era o que eu estava dizendo!”.

Vejamos, então, o mais extraordinário exemplo: o não relacionamento de Trump com Putin. Em maio de 2014, falando no National Press Club, Trump disse: “Estive na Rússia, em Moscou, recentemente e falei, indireta e diretamente, com o presidente Putin. Ele não poderia ter sido mais gentil”. Em novembro de 2015, num debate na Fox, ele disse, sobre Putin: “Eu o conheço muito bem, pois estivemos juntos no 60 Minutes”.

Será que Trump acredita mesmo que possa dizer uma coisa dessas ao vivo na TV sem que ninguém vá checar? Sem que ninguém assinale que o programa 60 Minutes consistiu de duas entrevistas pré-gravadas separadamente, com Putin em Moscou e Trump em Nova York? Seguindo essa lógica, devo conhecer Franklin Roosevelt muito bem, pois já usei clipes dele em meu programa de televisão.

Na verdade, Trump estava “papo-furando”. Ele se vê como uma importante celebridade global, o tipo de homem que deveria ou poderia ter se encontrado com Putin. Que importa se não encontrou de verdade?

Ou então vejamos o caso que deu força a sua ascensão política, o “nascimentismo” do presidente Obama. Trump afirmou em 2011 que havia mandado investigadores ao Havaí e eles “não queriam acreditar no que vinham encontrando”. Durante semanas, Trump continuou a sugerir que havia grandes descobertas a serem em breve reveladas. Isso foi há cinco anos. Nada aconteceu.

De fato, parece altamente improvável que, em primeiro lugar, ele tenha mandado investigadores ao Havaí. Naquele mesmo ano, a revista eletrônica Salon pediu ao advogado de Trump, Michael Cohen, detalhes da investigação. Cohen explicou que tudo, claro, era muito secreto. Trump disse algo semelhante sobre seus planos para derrotar o Estado Islâmico, que ele não podia revelar.

Ele também proclamou que tinha uma estratégia para ganhar em Estados democratas, mas não diria qual era. Mesmo pelos padrões de Trump, essa foi de cair o queixo. Será que ninguém veria essa “estratégia” quando ele estivesse em campanha nesses Estados? Ou seria ela tão secreta que mesmo os eleitores não iriam saber? Não havia, é claro, nenhuma estratégia secreta. Era só papo-furado.

Frankfurt conclui que tanto mentirosos quanto quem fala a verdade são conscientes de fatos e verdades. Apenas optam por ficar em lados opostos do mesmo jogo para atingir seus objetivos. Mas o artista do papo-furado perdeu toda conexão com a realidade. Nem leva em consideração a verdade. “Em consequência disso”, diz Frankfurt, “o papo-furado é tão grande inimigo da verdade quanto a mentira”.

Estamos vendo as consequências. Enquanto todo esse papo-furado continua, as regras que definem fato, verdade e realidade desapareceram desta campanha. Donald Trump usou na arena política tão grandes doses desse produto que é sua marca registrada (bullshit) que o mau cheiro se tornou dominante e insuportável.
/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA