Após Sanders, é possível ter unidade?

Redação Internacional

10 Junho 2016 | 05h00

DAVID WEIGEL
& JULIET ELLPERIN
THE WASHINGTON POST

Diante de mais de 3 mil pessoas na semana passada em Santa Cruz, na Califórnia, Bernie Sanders disse algo incomum. “Quantos aqui já foram a uma reunião do Partido Democrata?” Apenas uns cem levantaram as mãos. “Entendo”, disse Sanders. “A mensagem para a liderança democrata é que, se o partido quiser ser mesmo o partido dos trabalhadores, dos jovens e da classe média, terá de abrir suas portas.”

Durante a disputa das prévias, o senador conseguiu inclinar o partido para a esquerda, em parte ao dar força a grupos que se sentiam desligados da agremiação. Agora, os líderes partidários deram início à delicada operação de trazer de volta esses eleitores. Mas Sanders não está facilitando as coisas. Ele continua a se posicionar fora do partido. Já fez isso por outros meios – notadamente, por suas escolhas para o comitê de 15 membros da plataforma democrata. Agora, pode sobrar para esse comitê a tarefa de restabelecer a paz entre os seguidores de Sanders e o restante do partido.

Sanders foi encarregado da missão por uma concessão da deputada Debbie Schultz, da Flórida, presidente do Comitê Nacional Democrata (CND). Agora, o comitê da plataforma está constituído por militantes partidários veteranos, líderes históricos e críticos de esquerda – uma combinação de nomes apontados por Sanders, pela favorita à indicação, Hillary Clinton, e por Debbie.

Enquanto os designados por Debbie e Hillary trabalham há anos no interior do partido, os escolhidos de Sanders incluem um ativista contra as mudanças climáticas que já foi preso quando protestava numa barreira da Casa Branca e um professor de estudos afro-americanos da Ivy League que chamou Obama de “Rockefeller republicano de rosto negro”.

Vários membros do comitê da plataforma, que ainda não se reuniu formalmente, disseram que estão comprometidos com o consenso. Neera Tanden, presidente do Centro para o Progresso Americano, nomeada por Hillary, diz que os dois pré-candidatos tinham metas políticas semelhantes, como o ensino universitário, a proteção à infância e a reforma regulatória. “Houve debate sobre velocidade e escala, mas não quanto a temas e metas”, diz Neera.

No entanto, existiram diferenças significativas entre as campanhas em vários temas, como a proibição da extração de combustível fóssil de terras e águas federais, o uso de forças americanas no exterior e a abordagem do conflito israelense-palestino.

Sanders também indicou Cornel West, ativista da igualdade racial que há anos critica Obama. Ele já disse que Obama “posa de progressista, mas é uma falsificação”. Desde Jesse Jackson, em 1988, nenhum democrata chegou à convenção com número suficiente de delegados para propor mudanças na plataforma. Jackson diz que Sanders deveria “usar sua força para expandir o partido” e cimentar suas ideias econômicas, mais progressistas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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