Após vencer corrida pela indicação, Trump se lança a conquistar o partido

Clima de ceticismo e resignação toma conta do Partido Republicano, que se prepara para a Convenção Nacional que consolidará o nome do magnata na disputa pela Casa Branca; para analistas, tendência é legenda se concentrar na disputa legislativa

Renata Tranches

10 de julho de 2016 | 05h00

Renata Tranches

Após uma ampla vitória nas primárias americanas, Donald Trump precisa agora conquistar seu próprio partido se quiser chegar à Casa Branca. Às vésperas da Convenção Nacional que consolidará a indicação, no dia 18, o Partido Republicano alimenta um clima de ceticismo e resignação generalizados, que Trump tenta driblar.

Para analistas políticos, o magnata conduziu uma verdadeira “tomada hostil de poder” do Partido Republicano, cujo establishment agora precisa trabalhar para um candidato de que não gosta e com o qual não concorda. Importantes nomes, como Marco Rubio, já disseram que não irão ao evento, em Cleveland (Ohio). Outros até confirmaram presença, mas se recusaram a manifestar apoio.

Depois de alienar um eleitorado que o partido precisava conquistar e defender políticas contraditórias a ele, Trump se lançou, nos últimos dias, em um esforço para ganhar a simpatia dos reticentes. No entanto, seu histórico de ataques a figuras da própria legenda tornou muito difícil a missão. Na quinta-feira, Trump se encontrou com um grupo de 200 republicanos no Congresso para tentar mudar o mal-estar. Relatos de jornais americanos mostraram que ele não obteve muito sucesso.

Na opinião do diretor de Ciências Políticas da Universidade do Tennessee, Richard Lewis Pacelle, o partido vai à convenção “muito desorganizado”. “A arte é, essencialmente, tentar se distanciar pessoalmente da indicação. Isso é algo quase sem precedentes”, afirma Pacelle, em entrevista ao Estado.

Ele lembra que em duas ocasiões, em 1964 e 1972, uma ala do partido lutou para tomar a indicação republicana do establishment, o que causou divisões e grandes derrotas ao partido. “Mas isso é diferente. Trump não é um republicano normal. Ele apoiou mais democratas do que republicanos ao longo dos anos.”

“O Partido Republicano está sendo vítima de uma tomada de poder hostil, dominada por alguém que seus membros não gostam e com o qual não concordam”, afirmou ao Estado o especialista em estudos americanos da Cornell University (Nova York), Glen Altschuler.

Para ele, o partido tem duas opções. A primeira é tentar impedir a nomeação de Trump, o que poderia implodir o Partido Republicano. A outra, aceitar o inevitável e concentrar sua energia em candidatos da corrida para o Congresso. “Para mim, está bem claro que eles seguirão a segunda opção”, disse Altschuler.

A segunda opção justificaria a atitude do presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, republicano que ocupa o mais alto cargo eletivo nos EUA. Durante as primárias, Ryan entrou em vários desentendimentos com o empresário e os dois trocaram farpas publicamente.

Em um modesto artigo publicado no jornal de sua cidade, Janesville (Wisconsin), no começo de junho, Ryan disse que passou a conhecer Trump melhor e, por isso, estava dando seu apoio a ele. O endosso foi anunciado somente duas semanas após Trump ter alcançado o número suficiente de delegados para garantir sua nomeação. “O que Paul Ryan faz é tentar tirar o melhor de uma situação muito difícil. Dá um modesto apoio, mas concentra-se nos candidatos republicanos que estão disputando a Câmara e o Senado”, diz Altschuler. Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas.

Uma alternativa a Trump, a essa altura do processo, segundo Altschuler, seria mais devastador para o Partido Republicano do que ter ele competindo e perdendo. Para Pacelle, quanto mais cair nas pesquisas, mais os republicanos se afastarão dele e se concentrarão na disputa legislativa.

“Eles (candidatos) começarão a pedir que os eleitores os elejam para vigiar Hillary Clinton”, afirma. Para Pacelle, os republicanos mais “nervosos ou espertos” temem um dano duradouro à imagem do partido.

“Os comentários (de Trump) contrários aos latinos poderão afetar o partido por décadas”, disse. O professor lembra que, ao se opor à Lei dos Direitos Civis, em 1964, Barry Goldwater empurrou os eleitores negros para os democratas – e eles nunca mais retornaram. “Os republicanos têm sorte de ainda contar com 10% desse eleitorado.”

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