Após vitória de Trump, Merkel deve se tornar nova ‘líder do mundo livre’

Após vitória de Trump, Merkel deve se tornar nova ‘líder do mundo livre’

Para jornal americano, vitória do magnata faz com que chanceler seja a última defensora dos valores humanistas do Ocidente

Redação Internacional

17 de novembro de 2016 | 11h18

BERLIM – A eleição de Donald Trump como presidente dos EUA com um discurso populista, o autoritarismo na Rússia e na Turquia e uma União Europeia (UE) em crise levam alguns especialistas a se perguntarem se a chanceler alemã, Angela Merkel, se tornará a nova “líder do mundo livre”.

“A expressão ‘líder do mundo livre’ costuma ser aplicada ao presidente dos EUA, muitas vezes ironicamente. Eu me atreveria a dizer que a partir de agora a líder do mundo livre é Angela Merkel”, considerou o historiador britânico Timothy Garton Ash, professor em Oxford, em uma coluna publicada no jornal britânico The Guardian.

Chanceler alemã, Angela Merkel (Foto: AFP PHOTO / Oliver Dietze)

Chanceler alemã, Angela Merkel (Foto: AFP PHOTO / Oliver Dietze)

A visita do atual presidente Barack Obama nesta quinta-feira, 17, a Berlim aumenta as expectativas depositadas na chanceler alemã, a quem qualificou de “provavelmente a aliada internacional mais próxima nos últimos oito anos”. O presidente em fim de mandato não se despedirá da Europa no Reino Unido, aliado tradicional de Washington, mas na Alemanha, como quem passa o bastão adiante.

“A eleição de Donald Trump faz com que Angela Merkel seja a última defensora dos valores humanistas do Ocidente”, considerou o jornal The New York Times. Para a publicação alemã de esquerda Taz, “a importância da chanceler aumentará e ela deve manter a coesão da UE, fazer frente a Putin e a Erdogan, além de controlar Donald Trump”. O magnata é partidário do princípio “America first” (EUA primeiro), inclusive nas relações transatlânticas.

As alternativas de liderança na Europa, enfraquecida com o aumento do populismo, não são muitas. O Reino Unido estará ocupado durante alguns anos com o Brexit – a saída britânica da UE – e a França e Itália atravessam crises econômicas internas.

Em contexto semelhante, os alemães dão como certa a candidatura de Merkel a um quarto mandato nas eleições legislativas de 2017. “Ela se apresentará e atuará como uma líder responsável”, declarou um membro de seu partido, Norbert Röttgen, à emissora CNN.

De fato, a popularidade da chanceler aumentou desde as eleições americanas e ela poderia anunciar suas intenções no domingo. “Diante da repercussão da vitória eleitoral de Trump na Europa, ela pensará sem dúvidas que sua tarefa não está terminada e que deve continuar conduzindo a Europa”, considerou Daniela Schwarzer, diretora do instituto de pesquisas alemão DGAP.

Em sua mensagem parabenizando Trump, Merkel foi muito clara e o relembrou da importância dos valores democráticos. “As expectativas (depositadas na Alemanha) para que façamos oposição às tendências antidemocráticas são uma responsabilidade histórica e espero que estejamos à altura”, resumiu Stefani Weiss, especialista da fundação alemã Bertelsmann.

Com Trump, a chanceler terá de enfrentar uma tendência de retirada de Washington. “Sob a era de Obama já se viu uma distensão na relação transatlântica e que os EUA não querem e não podem mais ser as potências do mundo”, afirmou a analista.

Diante das intenções do magnata de melhorar as relações com o presidente russo Vladimir Putin, “a política pró-ocidental de Merkel a respeito da Rússia poderia acabar em desastre”, avaliou o jornal alemão Die Welt.

Trump se choca com outros pilares de Merkel, como sua política migratória, a defesa do livre comércio no mundo e a necessidade de lutar contra a mudança climática. “A tarefa de Merkel se complicou infinitamente”, advertiu Constanze Stelznmüller, analista da Fundação Robert Bosch, em uma coluna do jornal The Washington Post. / AFP

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