Artigo: O presidente na Trumplândia

Ao declarar que tem fé em Trump, Obama pretende entregar ao mundo um mostro sem dentes

Redação Internacional

17 de novembro de 2016 | 05h00

Frank Bruni
THE NEW YORK TIMES

Se o dia da eleição pareceu um sonho (na verdade, um pesadelo) sem lógica, a semana transcorrida desde então pouco fez para tornar o mundo mais coerente.

Donald Trump, triunfante com sua vitória, abordou a questão do muro. Aquela a promessa central de sua candidatura, reiterada em cada comício. Uma imponente barreira entre EUA e México que apenas ele teria poder para erguer.

Presidente dos EUA, Barack Obama (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Presidente dos EUA, Barack Obama (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

E o que ele disse? Que talvez seja apenas uma cerca em determinados pontos. Uma cerca! Três dias depois de eleito, ele já começa a recuar. Nesse ritmo, na época da posse ele vai falar numa gloriosa cerca viva ao longo da fronteira. Em abril serão moitas floridas, plantadas no formato da frase “Bem-vindos aos EUA”.

Quanto ao Obamacare, parece que o programa não é tão ruim assim, afinal. Trump disse gostar da parte que permite aos filhos que permaneçam no plano de saúde dos pais. Se pensarmos bem, é mais ou menos isso que Donald Jr., Ivanka e Eric vêm fazendo desde sempre. Gostou também da parte que impede as seguradoras de anular a cobertura para condições pré-existentes.

Meu palpite? Se algum democrata astuto propuser uma lei simplesmente rebatizando-a de Trumpcare, ele vai aprová-la numa fração de segundo. O homem é um escravo do ego, não de propostas políticas.

O presidente Barack Obama aposta nisso. Subitamente, está declarando ter fé em Trump – ou, talvez, jogando um fascinante jogo cerebral na tentativa de preservar seu legado fazendo Trump aceitá-los por meio de elogios.

Obama, que antes tinha alertado que Trump seria a encarnação dos quatro cavaleiros do Apocalipse num só, falou dos “dotes” de Trump e sua capacidade de “unir” as pessoas. “Não acho que seja uma pessoa guiada pela ideologia”, disse Obama. “No fim, é um prático.” Que Deus o ouça, presidente.

Ele disse que a reunião inicial tinha transcorrido tão bem a ponto de, em sua última viagem ao exterior, Obama poder acalmar algumas das ansiedades de alguns de seus aliados.

Deixemos de lado que Trump e Vladimir Putin já andaram trocando elogios pelo telefone (“Você é o cara”, “Não, você é o cara”). E o fato de Stephen Bannon já estar a caminho de atuar como chefe de gabinete. Na Grécia, Obama teve palavras mais frias de alerta para o rumo que um governo Trump poderia tomar – e deve evitar. “Temos de permanecer vigilantes contra a ascensão de um tipo grosseiro de nacionalismo”, disse.

Obama tenta salvar a honra após a devastadora derrota de Hillary Clinton. Nas semanas que antecederam a eleição, ele implorou: honrem meu nome ao escolhê-la. O número de americanos que atendeu ao pedido foi insuficiente e ele pareceu seguir o exemplo de Trump e criticá-la por sua resistência física. Sem mencionar o nome dela, Obama comentou destacadamente que, em suas campanhas de 2008 e 2012, ele viajou a “cada cidade e feira” de Iowa, estado que ele conquistou e ela, menos móvel, perdeu.

Do eletrizante discurso na convenção democrata de 2004 à empolgante campanha presidencial de 2008, ele falou em transcender os limites entre azuis e vermelhos, unindo brancos e negros, cicatrizando. Sem dúvida isso dá incentivo para usar qualquer técnica de jiujitsu cerebral necessária para manipular e influenciar Trump. Obama não quer que os historiadores escrevam que ele abriu as portas para um monstro. Pressiona por uma narrativa mais otimista: o monstro sem presas, o país a salvo.

Obama é e sempre foi um patriota, uma das maiores ironias desse episódio. Trump segue bradando a respeito de pôr os EUA em primeiro lugar, quando na verdade coloca a si acima de tudo.

*É COLUNISTA

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