Artigo: As múltiplas crises do Partido Republicano

Vitória de Trump e conquista de maioria nas duas Casas do Congresso leva legenda a enfrentar suas divisões internas para tentar governar

Redação Internacional

16 de novembro de 2016 | 05h00

Michael Gerson
The Washington Post

O Partido Republicano foi vitorioso em todos os sentidos na eleição americana. Conquistou o Senado e a Câmara, o Executivo e o Legislativo, no plano nacional e no estadual. Mas enfrenta uma série de crises.

O partido atravessa uma crise de identidade. Donald Trump agora lidera uma coalizão que inclui o establishment e pessoas que desprezam esse establishment. O insurgente presidente eleito – que carece de experiência e propostas adequadas – não conseguirá exercer o mandato sem ajuda de quem ridicularizou.

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Trump optou por levar o conflito para a Casa Branca. Seu chefe de gabinete, Reince Priebus, patrocinou o relatório em que foi feita uma profunda análise republicana em 2013, e no qual se insistia para o partido se adaptar ao caráter multicultural dos EUA. O principal estrategista de Trump, Stephen Bannon, fez carreira resistindo a esse futuro. Ou seja, não estamos diante de uma equipe de rivais, mas de uma luta ideológica ferrenha.

Uma boa transição presidencial envolve necessariamente trair alguns amigos. Nem todos que ajudam um candidato a se tornar presidente são os adequados para assessorá-lo no governo. Bannon, cujo site Breitbart News convidou a chamada “direita alternativa” a aderir à corrente conservadora e transformou em modelo de negócios a difusão de absurdos conspiratórios – Bannon pertence a essa categoria, juntamente com Sarah Palin, Rudy Giuliani, Corey Lewandowski e outros que participaram da campanha.

Para o partido, é também uma crise de governo. Trump venceu prometendo acabar com a globalização, trazer empregos de volta aos EUA e tornar realidade “todos os sonhos que você um dia sonhou”. As expectativas são grandes. Mas o Trumpismo, na maior parte, consiste de sinalizações culturais e objetivos simbólicos, e não um conjunto de propostas bem elaboradas.

Cisão. Muitos membros republicanos do Congresso estão confusos. Devem seguir a liderança de Trump ou satisfazer seu programa? Ele pretende investir maciçamente na infraestrutura do país, mas não há nenhum projeto de lei nesse sentido. O Obamacare deve ser revogado, mas que programa para substituí-lo Trump prefere? O presidente da Câmara, Paul Ryan, insiste na reforma fiscal. O presidente eleito tem algum interesse nesse assunto?

A maior frustração dos republicanos que se reuniram com Trump foi sua incapacidade de se concentrar. Ele não teve paciência para analisar fatos e mapas apresentados, mudando de assunto a cada minuto. Os líderes republicanos necessitam de uma liderança política, ou de permissão para eles mesmos liderarem.

Uma área em que o programa de governo tem apoio de todos e está bem desenvolvida diz respeito à anulação dos decretos executivos de Obama. Os advogados republicanos passaram um ano e meio trabalhando para analisar o assunto e estar preparados no primeiro dia de uma presidência republicana.

A medida que deverá provocar controvérsias será a revogação da anistia ilimitada, decidida por Obama, para estudantes que foram trazidos ilegalmente para os EUA quando crianças. Muitos republicanos entendem que essa decisão de Obama foi legal. Mas muitos americanos serão simpáticos às vítimas da anulação dessa ordem.

Essa questão mostra a crise política de longo prazo enfrentada pelo Partido Republicano. Trump conquistou a presidência de um modo que prejudica o futuro eleitoral da legenda. Ele demonstrou que “a coalizão dos emergentes” – jovens das minorias e da chamada geração do milênio – ainda não emergiu. Mas em uma nação onde mais da metade das crianças com menos de 5 anos de pertencem a minorias, ela surgirá.

Trump foi eleito por um eleitorado branco numa proporção de 70% dos seus votos. Mas foram 2 pontos porcentuais a menos do que na eleição de 2012 e há décadas essa porcentagem vem caindo a cada eleição. A estratégia de Trump – de contar com um alto comparecimento de eleitores brancos às urnas – não será a onda do futuro e sim o último suspiro de uma tática eleitoral.

A crise final do partido tem relação com a qualidade da cultura política. Trump venceu de um modo que danificou a democracia. Alimentou o ressentimento contra as minorias, prometeu prender sua adversária e transformou os insultos mais vis numa forma de arte. Se governar da mesma maneira, vai esfacelar a unidade do país.

A esperança é que o presidente eleito recupere a sobriedade com as responsabilidades do cargo e descubra os recursos ocultos da caridade. Ele merece, ao menos, tentar. Mas os republicanos talvez tenham de depender de uma geração mais jovem de líderes – como Ryan, Ben Sasse, Nikki Haley – para mostrar que é possível existir um objetivo unificador e uma discordância civilizada. É o que estabelecerá as bases para uma vitória digna e duradoura. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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