Artigo: Campanha polêmica deve ser anúncio de crise de governo

Artigo: Campanha polêmica deve ser anúncio de crise de governo

Os dois lados têm responsabilidade pelo lamentável estado da política neste ano, mas a culpa avassaladora é do republicano Donald Trump

Redação Internacional

08 de novembro de 2016 | 10h55

Albert R. Hunt
Bloomberg View

Uma palavra descreve esta eleição presidencial americana: assustadora. Isso tem implicações fatídicas para a importante tarefa de governar pelos próximos anos.

Eleições em que grandes temas são abordados tornam-se valiosas porque levam a uma agenda de governo a ser debatida e decidida.

Trump durante intervalo de comício na Pensilvânia

Trump durante intervalo de comício na Pensilvânia

Os dois lados têm responsabilidade pelo lamentável estado da política neste ano, mas a culpa avassaladora é do republicano Donald Trump. Ele desencadeou com desenvoltura uma campanha de insultos venenosos e cruéis.

Se ele ganhar, o que fará em seu mandato? Levantará um muro ao longo da fronteira sul, fazendo os mexicanos pagarem por ele? Mesmo muitos de seus seguidores sabem que isso é uma fantasia idiota. Prenderá e deportará milhões de trabalhadores ilegais? Isso custaria uma fortuna e seria socialmente catastrófico. Começará uma guerra comercial com a China, a segunda maior economia do mundo? Seria uma repetição do desastroso ato tarifário Smoot-Hawley de 1930.

Todos esses itens do programa de governo vão de encontro às prioridades do presidente da Câmara, Paul Ryan, e outros líderes republicanos do Congresso. O establishment do partido concorda com as propostas de Trump de cortes de impostos para os ricos, para os investimentos e para os negócios. Mas parlamentares conservadores querem contrabalançar esses cortes com reduções em programas sociais – uma trava para o candidato republicano, que exalta as virtudes do endividamento.

Trump deu poucos indícios sobre uma política de saúde, exceto dizer que vai reformular o Affordable Care Act. Foi igualmente vago sobre segurança nacional, além de afirmar que admira o ditador russo, Vladimir Putin, e prometer acabar de algum modo com o Estado Islâmico.

Hillary Clinton, por outro lado, apresentou uma abrangente agenda sobre muitos temas. Mas sua mensagem com frequência pareceu descer ao nível de Trump. Se ela vencer e os democratas não conquistarem o Senado, não haverá nem uma breve lua de mel, e um longo pesadelo terá início. Mesmo os democratas fazendo uma pequena maioria no Senado, e sendo eles ainda minoria na Câmara, impasses e rancor podem vir a ser a norma.

O senador Ted Cruz, e até seu colega John McCain, já deram a entender que podem não confirmar a indicação de Hillary para a Suprema Corte. Hoje, o Supremo tem quatro juízes indicados pelos republicanos e quatro pelos democratas. Existe uma vaga no tribunal, embora um juiz indicado, o altamente qualificado Merrick Garland, venha sendo preterido pelo Senado há quase oito meses.

Na Câmara, o deputado Jason Chaffetz, republicano de Utah, já está salivando por investigações num mandato de Hillary Clinton. Pode ser tentador reduzi-lo a um hipócrita caçador de manchetes – quando surgiu um vídeo mostrando Donald Trump se gabando, em termos chulos, de assediar mulheres sexualmente, Chaffetz correu para a TV afirmando que, “em sã consciência”, não poderia apoiar o indicado e olhar sua filha de 15 anos nos olhos. Entretanto, menos de três semanas depois, sob pressão política, ele esqueceu sua consciência de pai e declarou que votaria em Trump. Chaffetz preside a Comissão de Fiscalização da Câmara, o que o deixa livre para abrir investigações.

Campanhas podem antecipar agendas. Em 1980, Ronald Reagan prometeu reduzir impostos, diminuir regulamentações e aumentar agressivamente os gastos com a defesa. Eleito, teve de se adaptar à realidade – foi mais flexível do que muitos de seus apoiadores gostariam –, mas conseguiu se manter fiel ao que prometera em campanha e o levou à vitória.

Igualmente, em 2008, Barack Obama afirmou que duas de suas prioridades eram reformular o sistema de saúde e pôr fim à guerra no Iraque. Também teve de encarar uma realidade diferente, com a economia em queda livre, mas pôde se ater aos principais compromissos de campanha.

Um ambiente hostil e uma campanha suja tornam improváveis desempenhos semelhantes aos de Reagan e Obama. Campanhas contam. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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