Artigo: Colisão de Américas: Trump e Pence versus o elenco de ‘Hamilton’

Em vez de tentar reconciliar a nação, presidente eleito revida declaração de elenco de musical, que manifestou inquietação sobre futuro

Redação Internacional

22 de novembro de 2016 | 05h00

Philip Rucker
THE WASHINGTON POST

Mike Pence foi eleito vice-presidente por uma coalizão de eleitores, na maioria brancos, nostálgicos do que consideram os bons tempos dos EUA e incentivados pelas promessas de deportação de imigrantes ilegais. Na sexta-feira, Pence ficou frente a frente com um símbolo do novo país: um sucesso musical chamado Hamilton, que celebra os princípios dos fundadores da nação, mas recria o período revolucionário com atores de várias raças no papel de estadistas e as contribuições dos imigrantes personagens centrais da história.

Quando o espetáculo terminou o ator Brandon Victor Dixon leu uma declaração política que membros do elenco escreveram em conjunto: “Senhor, somos a America diversificada, alarmada e inquieta que o seu novo governo não vá nos proteger, nem nosso planeta, ou nossos filhos, pais, nem nos defenderá e preservará nossos direitos inalienáveis”.

In this image made from a video provided by Hamilton LLC, actor Brandon Victor Dixon who plays Arron Burr, the nation’s third vice president, in

O ator Brandon Victor Dixon, acompanhado do elenco de ‘Hamilton’ faz declaração ao vice Mike Pence

Esse momento cristalizou a divisão criada por uma venenosa campanha presidencial, em que milhões de americanos brancos que se sentem prejudicados levaram Donald Trump e Pence para a Casa Branca e deixou outros milhões – negros, latinos, gays e lésbicas, muçulmanos e judeus temerosos do que pode se tornar o seu país.

“Foi uma coalizão de duas diferentes Américas, duas diferentes visões e dois diferentes grupos de experiências, ocorrendo de uma só vez e de uma maneira muito dramática”, disse Peter Wehner, ex-encarregado de redigir os discursos do presidente George W. Bush e membro do Ethics and Public Policy Center.

No sábado, Trump resolveu responder. Ele poderia ter oferecido garantias de que será um presidente para todos os americanos. Mas Trump revidou. “O teatro tem de ser sempre um lugar especial e seguro. Na noite passada, o elenco de Hamilton foi muito grosseiro com um homem muito bom, Mike Pence. Peçam desculpas!” Havia certa ironia na demanda, considerando que, como candidato, ele raramente se desculpou pelos insultos que proferiu por todo o país.

Sob muitos aspectos Hamilton se tornou uma espécie de ponto de referência nas guerras culturais nos EUA. Hillary Clinton adotou o musical e seu criador, Lin-Manuel Miranda, apoiou a candidatura dela.
O modo de agir de Trump no incidente envolvendo Pence está em sintonia com a maneira de agir dele em controvérsias culturais passadas e é uma indicação de como ele agirá na Casa Branca.

Embora seja um bilionário que vive num apartamento de três andares na Quinta Avenida em Manhattan, ele sempre se sentiu excluído e afastado pela elite de Nova York e Washington. Trump é suscetível a certos esnobes e dominou a arte de responder às críticas de liberais como um meio de conquistar sua base da classe média americana.

Para o historiador Robert Dallek, a resposta de Trump foi um ato gerador de discórdia da parte de um presidente com dificuldades para reconciliar uma nação após uma eleição acrimoniosa. “Em vez de fazer o que Franklin Roosevelt ou John Kennedy teriam feito, ele exacerba as divergências afirmando que o elenco tem de se desculpar. O que eles estavam pedindo? Um olhar para as minorias. Não estavam pedindo para ele renunciar ao cargo”.

“Não acho que Trump compreenda que, apesar de sua vitória no Colégio Eleitoral, muitas pessoas não aceitam a retórica de sua campanha como a linguagem do governo”, disse Tad Devine, estrategista democrata. “Trump abriu a caixa de Pandora e estamos em busca da esperança no fundo dela.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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