Artigo: Confessem e errem melhor!

Artigo: Confessem e errem melhor!

Redação Internacional

15 Outubro 2016 | 05h00

Timothy Garton Ash*
Especial

O problema de Hillary, diz um amigo que assistiu a seu segundo debate com o intragável Donald Trump, “é que ela surge como a personificação do consenso liberal”. Exatamente isso, e o antiliberalismo é um dos elos entre trumpismo, Brexit, governo populista nacionalista da Polônia, putinismo e muito mais.

Nós, internacionalistas liberais, temos de continuar combatendo as falsas e demagógicas acusações de populistas antiliberais como Trump, Nigel Farage e Jaroslav Kaczynski, da Polônia. Mas isso não nos deve impedir de fazer um honesto exame de consciência sobre as falhas desta versão particular de liberalismo que tem vindo embutida na globalização do último quarto de século.

Para ONG americana, eleição de Trump representaria grave risco à liberdade de imprensa (FOTO: Ty Wright/Getty Images/AFP)

Para ONG americana, eleição de Trump representaria grave risco à liberdade de imprensa (FOTO: Ty Wright/Getty Images/AFP)

Aqueles que tendem ao populismo se queixam das consequências econômicas, sociais e culturais da globalização do livre mercado. Essas queixas, claro, variam de país para país, mas têm sempre muito em comum. Economicamente, esses indivíduos perdem, ou pelo menos não se beneficiam tanto quanto outros.

Sua renda fica estagnada ou declina, enquanto os empregos migram para Índia ou China (onde, é importante assinalar, encontram-se muitas centenas de milhões de beneficiários da globalização). Às vezes, os empregos vão para imigrantes dispostos a trabalhar por menos, ou para jovens mais adaptáveis a uma economia em mudança rápida e a máquinas, num período de automação digital sem precedentes.

Socialmente, os queixosos veem por perto, nas partes mais ricas das cidades ou do país, e na televisão, pessoas que se saíram muito bem, enquanto eles continuam se debatendo. A maior parte dos banqueiros que quebraram a economia capitalista do Ocidente saiu com suas fortunas pessoais intactas.

Analisando um livro sobre grandes banqueiros, Francis Fukuyama disse que uma das maiores dúvidas é se não estaríamos, na verdade, vivendo numa espécie de oligarquia do tipo que costumamos ver em lugares como Rússia ou Casaquistão. Os piores desses banqueiros merecem amplamente o rótulo de “deploráveis” com que Hillary, num momento infeliz, qualificou “metade” dos seguidores de Trump.

Culturalmente, os que ficaram para trás dizem “não reconheço mais meu país”. Essa frase abrange o impacto da imigração, a disseminação do liberalismo social e o ritmo das mudanças em torno. Há uma forte tentação de culpar o outro. Na França, os dedos apontam os muçulmanos, que de fato estão lá em número significativo. Na Polônia, por outro lado, os inimigos dos populistas são os demonizados refugiados islâmicos, que pouca gente viu porque o governo só permitiu a entrada de um punhado deles.

Nos Estados Unidos, a política de identidade branca do trumpismo é dirigida tanto contra mexicanos quanto muçulmanos. No entanto, se trata sempre do outro. Os populistas canalizam essas queixas generalizadas por vias paranoicas. As queixas, de qualquer modo, têm um fundo de realidade, e precisamos reconhecer que as causas repousam, pelo menos em parte, no capitalismo liberal globalizado de livre mercado desenvolvido nos últimos 25 anos, desde o histórico triunfo mundial do liberalismo, em 1989. Sim, este é o mundo que nós, internacionalistas liberais, construímos.

Enfrentar de maneira eficaz os efeitos transnacionais do capitalismo liberal globalizado exigirá uma maior cooperação internacional, no exato momento em que nacionalistas populistas estão levando tantos países na direção oposta. Para remediar as indesejadas consequências da globalização, é preciso justamente mais internacionalismo liberal, não menos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É PROFESSOR NA UNIVERSIDADE OXFORD