Artigo: Ecos internacionais

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Se eleita, Hillary deve dar ênfase à geopolítica ‘tradicional’; Trump, além de renegociar pactos comerciais, deixará de proteger aliados dos EUA

Redação Internacional

06 de novembro de 2016 | 05h00

The Economist

Se Hillary Clinton for eleita, sua política externa deve guardar semelhanças com a de Barack Obama. Se o eleito for Donald Trump, os americanos terão uma política externa diferente de tudo que já viram.

Para explicar como seria a política externa de Hillary, seus assessores e aliados gostam de falar, antes de mais nada, sobre o sentimento que a democrata nutre pelos EUA. É importante lembrar, dizem eles, que a ex-secretária de Estado foi criada no Meio-Oeste e, na eleição presidencial de 1964, quando tinha 16 anos e nem votar podia, Hillary ajudou na campanha (servindo biscoitos e limonada em reuniões e outros eventos) do republicano anticomunista Barry Goldwater.

Candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton (Foto: REUTERS/Mike Blake)

Candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton (Foto: REUTERS/Mike Blake)

Ela “vê os EUA como uma força do bem” e ficou marcada pela experiência que teve como primeira-dama, quando o marido se viu obrigado a recorrer à ação militar para restaurar a paz nos Bálcãs, diz um correligionário que já ocupou cargos importantes no governo. Ele também contrapõe Hillary a Obama, um presidente que se fecha em copas quando ouve apelos para que os EUA intervenham em conflitos externos.

Outra ex-autoridade governamental diz que Obama se diferencia de seus predecessores pela atenção atípica que dedica a ameaças “globais”, como as mudanças climáticas, a não proliferação nuclear e a formação de redes terroristas em pontos remotos do planeta. Para obter a cooperação da China no combate ao aquecimento global ou a ajuda da Rússia na tentativa de conter o programa nuclear iraniano, Obama relegou a segundo plano ameaças “geopolíticas”, como a atuação agressiva de Pequim no Mar do Sul da China e as incursões dos russos no Leste Europeu. Hillary, segundo esse seu simpatizante, “deve reequilibrar a balança” e voltar a dar mais ênfase à geopolítica “tradicional”.

Obstáculos. Há partidários da democrata que discordam desse prognóstico. Em sua opinião, não se deve esperar de Hillary uma atuação internacional muito mais intervencionista que a de Obama. Até porque, se ela chegar à Casa Branca, o front externo lhe reserva problemas bastante espinhosos, a começar pela Síria.

Nos debates presidenciais, a democrata falou em trabalhar pela criação de uma zona de exclusão aérea e áreas de segurança na Síria. No entanto, em palestra proferida em 2013 a executivos do setor financeiro, recentemente vazada pelo site WikiLeaks, Hillary disse que isso exigiria ataques contra as instalações da defesa aérea síria, muitas das quais se encontram em áreas densamente povoadas. Fontes com acesso direto à democrata acham que ela começará reavaliando em que medida a resiliência do regime de Bashar Assad, a intervenção russa e a fragilidade da oposição limitaram as alternativas à disposição dos EUA.

Veteranos do governo Obama também acreditam que Hillary buscará uma reaproximação com Israel, Egito, Arábia Saudita e Turquia,? parceiros de longa data dos americanos, cujas relações com o atual presidente dos EUA dificilmente poderiam ser piores. Mas anteveem obstáculos a tais esforços. Hillary considera a paz no Oriente Médio “uma prioridade”, mas, para o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, a paz com os palestinos “não é prioridade nenhuma”.

Outro ex-integrante do governo democrata indica que, embora pretenda manter o acordo nuclear com o Irã, Hillary não titubeará em reagir publicamente às provocações iranianas, como o envio de armas para grupos terroristas e as perigosas manobras executadas por embarcações da Guarda Revolucionária contra navios da Marinha americana.

Durante a campanha, a candidata falou em promover uma “escalada de inteligência” contra o Estado Islâmico (EI). A frase de efeito se presta a ocultar o fato de que em sua estratégia para combater o grupo terrorista provavelmente haverá mais continuidade que mudança.

Na Ásia, a agressividade demonstrada nos últimos tempos pela Coreia do Norte, com testes nucleares e lançamentos de mísseis, encabeçarão a pauta de Hillary. Correligionários dizem que a democrata dá sinais de que pretende trabalhar por sanções mais duras, possivelmente incluindo medidas contra norte-coreanos que trabalham no exterior e restrições ao acesso do país a instituições financeiras, assim como o estabelecimento de um sistema de defesa antimísseis em cooperação com Japão e Coreia do Sul, medidas que causam desconforto à China.

E o nervosismo dos chineses não se limita a isso. As autoridades da potência asiática não se esquecem da defesa que Hillary fez dos direitos das mulheres e dos direitos humanos numa conferência em Pequim, em 1995. Desde esse episódio, sua confiança na democrata ficou abalada. Reservadamente, os líderes chineses comemoraram o fato de que, com o desenrolar da campanha eleitoral, Hillary tenha se sentido obrigada a repudiar a Parceria Transpacífico (TPP), que exclui a China.

Rússia. Se eleita, as relações de Hillary com o autocrata russo Vladimir Putin começarão gélidas. Putin não escondeu seu descontentamento quando, em 2011, a então secretária de Estado questionou a lisura das eleições parlamentares russas. Com o respaldo de autoridades de inteligência dos EUA, a campanha de Hillary acusou a Rússia de tentar interferir na eleição presidencial americana, roubando e-mails de expoentes do Partido Democrata.

Por sua vez, quando tentam explicar a visão de mundo de seu candidato, os assessores de Trump começam falando dos sentimentos que o republicano nutre por si mesmo, por seu “tino” e por suas habilidades de negociante deixando os enfadonhos detalhes de propostas específicas para depois. Falam de um “sujeito pragmático”, afeito à “realpolitik”, que vê um mundo ameaçador e ingrato, cujo conserto está há tempo demais a cargo exclusivo dos EUA.

Para Keith Kellogg, um tenente-general reformado que assessora Trump, seu chefe tem visão parecida com a de Ronald Reagan, uma vez que trata a Rússia como uma concorrente com a qual é possível negociar e firmar acordos, sobretudo tratando de uma causa comum como o combate aos islamistas na Síria.

Para os críticos, nada poderia ser mais avesso à política externa implementada por Reagan nos anos 80 do que as opiniões manifestadas por Trump. Afinal, o magnata elogiou o “excelente controle que Putin tem de seu país” e deu a entender que a obrigação que os EUA têm de defender seus aliados na Otan não é incondicional. Indagado se defenderia as repúblicas bálticas de um ataque russo, o candidato republicano, que se queixa dos membros da Otan que deixam de cumprir suas metas de gastos com defesa, respondeu: “Se elas fizerem a parte delas nas obrigações que têm conosco, a resposta é sim”.

Em 2015, Trump qualificou a construção de pistas de pouso em recifes do Mar do Sul da China como um ato hostil dos chineses, acrescentando: “Esses recifes ficam longe à beça. E agora as pistas já estão lá”. O republicano também disse que a solução para o problema poderia ser dada pelo próprio Japão. “Se tirarmos o nosso time de campo, eles vão saber se defender. O Japão vivia derrotando a China naquelas guerras deles”.

Proliferação. Trump diz que pretende renegociar o acordo nuclear com o Irã e pressionar os chineses para que façam algo para neutralizar a ameaça norte-coreana. O republicano já afirmou que o aquecimento global é uma farsa e prometeu cancelar a transferência de bilhões de dólares para os programas da ONU de combate às mudanças climáticas. Garante que vai “varrer do mapa” o EI, mas não explica como.

Se há uma coisa sobre a qual Trump não se esquiva de tratar é sua desconfiança em relação ao livre comércio. Ele promete que, em seus primeiros dias na Casa Branca, renegociará o Nafta, acordo comercial em vigor desde 1994, que reúne EUA, Canadá e México.

O candidato republicano também promete que suspenderá as negociações em torno do TPP. Além disso, pretende acusar formalmente a China de manipulação cambial, sustentando que o iene está subvalorizado,? acusação que a maioria dos economistas considera ultrapassada. Questionado sobre o perigo de que tal ação dê início a uma guerra comercial, o assessor de Trump para comércio internacional, Dan DiMicco, diz que, na opinião do candidato, faz 20 anos que os EUA estão em guerra comercial com a China.

Trump conhece de cor e salteado a mensagem que seus eleitores querem ouvir, a saber, que os EUA têm a vitória nas mãos. Basta parar de frescura e partir para cima dos adversários. Muitas de suas promessas não fazem o menor sentido. No entanto, considerando o caos que sua presença na Casa Branca pode provocar, a revolta dos eleitores americanos que se sentirem traídos pelo republicano será a menor das dores de cabeça com que o restante do mundo terá de se haver. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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