Artigo: Em EUA e Polônia, guerra populista contra as mulheres

Artigo: Em EUA e Polônia, guerra populista contra as mulheres

Jroslaw Kaczynski e Donald Trump, dois políticos que vêm chocando o mundo, têm conseguido se livrar da repercussão de suas ofensas; mas ambos viram-se, de repente, confrontados com uma força política com a qual nenhum dos dois contava: as mulheres

Redação Internacional

06 de novembro de 2016 | 15h30

Slawomir Serakowski*
PROJECT SYNDICATE

Jroslaw Kaczynski e Donald Trump, dois políticos que vêm chocando o mundo, têm conseguido se livrar da repercussão de suas ofensas. Mas não mais. Ambos viram-se, de repente, confrontados com uma força política com a qual nenhum dos dois contava: as mulheres.

Antes das eleições parlamentares do ano passado na Polônia, a organização de extrema direita Ordo Iuris havia proposto uma proibição total do aborto, algo que vai além até da atual legislação do país, uma das mais restritivas da Europa. Pela proposta, as mulheres teriam de dar à luz mesmo em caso de estupro, incesto, riscos para a saúde e problemas com o feto. Ao mesmo tempo, outra proposta de lei, que previa a liberalização do aborto, com educação sexual nas escolas e a cobertura de contraceptivos pelo seguro-saúde foi apresentada ao Parlamento.

Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Embora o Partido Lei e Justiça (PiS) tivesse prometido que a proposta liberalizante não seria rejeitada em primeira leitura, foi o que ocorreu. Então, as mulheres, em massa, tomaram as ruas.
Por quase duas décadas, os poloneses não acreditaram que as leis de aborto pudessem ser modificadas, dado o poder da Igreja Católica e a subordinação da classe política às autoridades religiosas. Mas a atriz Krystyna Janda, estrela do filme O Homem de Ferro, de Andrzej Wajda, convocou as mulheres para uma greve geral. No dia 3 de outubro, em lugar de irem para o trabalho, mulheres de todo o país aderiram ao protesto. Seguiam um modelo estabelecido pelas finlandesas em 1975, quando 90% delas não foram trabalhar e, na prática, paralisaram o país.

As manifestações na Polônia ocorreram até em cidades pequenas, mesmo em meio a0 mau tempo. Mulheres também se reuniram em frente à sede do PiS, o verdadeiro centro do poder na política polonesa. Em solidariedade às polonesas, mulheres de outros países saíram às ruas vestidas de preto.

Pela primeira vez desde que o PiS voltou ao poder, no ano passado, Kaczynski se assustou. No dia seguinte, fez seu partido votar pela rejeição da proposta antiaborto. Ele nunca havia recuado assim.

Nos Estados Unidos, a campanha presidencial de Trump só começou perder força quando foi revelado que ele se gabara de investir sexualmente contra mulheres. Logo em seguida, vítimas de assédio cometidos por ele saíram a público para denunciá-lo.

A aura de Trump foi rompida. Eleitores independentes – e muitos republicanos – se manifestaram contra ele. Michelle Obama fez um discurso emocionado sobre como o comportamento de Trump a havia chocado. O apoio a Trump, particularmente entre mulheres dos subúrbios, caiu drasticamente. Segundo pesquisas recentes, seu índice de aprovação entre o eleitorado feminino caiu de 39% a 29% em dias.

Mesmo assim, nem Trump nem Kaczynski parecem dispostos – ou capazes – de mudar de rota. Com a guerra contra as mulheres, que são maioria na Polônia, conseguiu que essa corrente se unisse à esquerda, politizando e inflamando a juventude. Após os últimos comentários de Kaczynski, mulheres começaram a se aglomerar em frente à casa dele, advertindo-o: “Você quer bisbilhotar em nossa cama? Então vamos bisbilhotar em sua casa”.

Segundo pesquisa do jornal Rzeczpospolita, 69% dos poloneses apoiam o autodenominado “protesto negro” das mulheres. Se a greve programada para o dia 24 for maior que a manifestação do dia 3, a aprovação do PiS, sem dúvida, vai cair pela primeira vez desde que o partido chegou ao poder.

Trump também decidiu dobrar a aposta no sexismo. Chamou uma de suas acusadoras de “horrível”, acrescentando: “Podem crer, ela não seria minha primeira escolha”. E, num aceno direto a seus muitos apoiadores supremacistas brancos dentro da autodenominada “direita alternativa”, também aludiu a um clássico chavão antissemita, acusando Hillary de se reunir “em segredo com banqueiros internacionais para tramar a destruição da soberania dos Estados Unidos de forma a enriquecer os poderes financeiros globais”.

Mas americanos e poloneses não estão mais caindo nessa. Assim, faz sentido que Trump, e possivelmente Kaczynski, venham a ser derrotados por aqueles cuja dignidade e relevância ambos se recusam a reconhecer – com as mulheres à frente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* FUNDADOR DO MOVIMENTO KRYTYKA POLITYCZENA, É DIRETOR DO INSTITUTO DE ESTUDOS AVANÇADOS DE VARSÓVIA.

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