Artigo: EUA enfrentarão profunda divisão após as eleições

Redação Internacional

28 de outubro de 2016 | 05h00

Richard N. Haass
 PROJECT SYNDICATE

A campanha presidencial em curso nos EUA se destaca pela falta de civilidade e pela enorme diferença entre os dois candidatos: o empresário antiestablishment Donald Trump do lado republicano e a refinada política Hillary Clinton representando os democratas. A disputa já expôs as profundas fraturas na sociedade americana e prejudicou a reputação do país em todo o mundo.

Portanto, não surpreende que uma das poucas coisas que os americanos parecem concordar é que essa campanha já está durando muito. Mas a pergunta é: o que virá depois? Pesquisas sugerem que Hillary derrotará o controvertido Trump. Mas não devemos confundir pesquisa com realidade. Recentemente, os eleitores colombianos rejeitaram um acordo de paz que todos esperavam que teria aprovação popular. A única coisa que se pode fazer até as eleições é especular. Não há dúvida que o país sairá desta eleição dividido, não importa quem será o presidente ou que partido terá maioria no Congresso. Nem os democratas ou os republicanos conseguirão concretizar seus objetivos sem algum apoio do outro.

Mas ninguém deve achar que a única divisão no país é entre republicanos e democratas. Na verdade as rupturas dentro dos dois grandes partidos são profundas. Se Hillary vencer, muitos republicanos acharão que a sua vitória se deveu somente às falhas de Trump e, na sua opinião, ela será presidente com um único mandato. Um país que defende mudanças, concluirão, não manterá um democrata na Casa Branca por quatro mandatos.

Muitos republicanos (especialmente os que negam a legitimidade de uma vitória de Hillary) tentarão frustrar o governo para que ela não consiga disputar em 2020 um segundo mandato. Do mesmo modo, se Trump sair vitorioso, a grande prioridade no caso de muitos democratas (e até alguns republicanos), depois de se recuperarem da surpresa e desalento, será assegurar que ele não conquiste um segundo mandato.

Mesmo em qualquer dos dois cenários talvez seja possível avançar em algumas áreas importantes. Mas problemas que necessitarão de cooperação entre Congresso e o presidente não serão resolvidos. Um deles é a reforma da lei de imigração, tema muito controvertido nos EUA e na Europa, e a outra questão é o comércio. O que ocorrerá exatamente após a eleição é uma incógnita. A única certeza é que os 96% da população mundial que não votará na eleição americana sentirá os efeitos dela do mesmo modo que os americanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO POLÍTICO DO DEPARTAMENTO DE ESTADO AMERICANO E PRESIDENTE DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS

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