Artigo: O poder normalizará Donald Trump?

Artigo: O poder normalizará Donald Trump?

A imprevisibilidade, parente da instabilidade, tem funcionado bem para Trump

Redação Internacional

20 Janeiro 2017 | 05h00

Paulo Sotero*

Donald Trump elegeu-se demolindo premissas, pesquisas de opinião e adversários. Sua campanha derrotou o establishment de seu Partido Republicano e destroçou a poderosa máquina política democrata comandada por Hillary e Bill Clinton e um bem avaliado Barack Obama. Trump começa sua administração com a pior avaliação de um presidente recém-eleito, sem ter feito esforço para melhorá-la. Ao contrário, continuou em campanha insultando opositores, criticando aliados dos EUA, afagando inimigos e repetindo que “tornará a América grande novamente”, sem dar detalhes.

FILE-- President-elect Donald Trump at the Carrier plant in Indianapolis, Dec. 1, 2016. Trump  appeared with workers at the plant to boast of his success in saving at least 1,000 jobs from moving to Mexico. Many people associate presidents with eras Ñ and eras with strong or weak economies. But the reality is more complicated. (A J Mast/The New York Times)

O novo presidente americano, Donald Trum. Foto: A J Mast/The New York Times

A imprevisibilidade, parente da instabilidade, tem funcionado bem para Trump. Combina com seu ego avantajado, que o surpreendente triunfo tornou ainda maior. Ocorre que a noção do governo dos EUA como gerador de instabilidade em casa não tem parâmetro recente, não corresponde aos interesses do país, nem é aceitável para os americanos. Analistas como meu colega Aaron David Miller, do Wilson Center, acreditam que a postura é tática. Seria uma maneira barata e eficaz de criar tensão para vender distensão, ou pôr e tirar o bode da sala para mostrar serviço e obter ganhos políticos. Mas tem prazo de validade.

Trump “ascendeu ao poder de forma não convencional, sem experiência de governo, mas terá sobre os ombros a responsabilidade de manter a prosperidade e a segurança dos EUA num mundo perigoso”, disse Miller. Isso pressupõe previsibilidade e confiança, e o novo líder terá agora de produzir o que prometeu, a começar pela economia. “Esperarei até o presidente americano tomar posse e então trabalharemos com ele em todos os níveis”, disse a chanceler alemã Angela Merkel, criticada por Trump pelo “erro catastrófico” que teria cometido ao acolher refugiados dos conflitos do Oriente Médio.

O presidente do Irã, Hassan Rohani, tratou como bravata as repetidas declarações do novo presidente sobre sua intenção de desfazer o acordo nuclear que os EUA e cinco outros países assinaram com Teerã. “Trump é só conversa”, disse o líder iraniano, segundo a CNN. A cautela de Merkel e a incredulidade de Rohani derivam do mesmo cálculo: as duras realidades do mundo e as dificuldades de governar acompanharão Trump à Casa Branca e o normalizarão. Apontam nessa direção as divergências que membros-chave do futuro gabinete de ministros manifestaram em suas audiências de confirmação no Senado em relação às posições declaradas de seu chefe sobre a Rússia, mudança climática, o muro na fronteira com o México, Otan, tortura e serviços de inteligência.

São administradores experientes e sabem que Trump terá de ser um líder mais convencional, dependente de um vasto aparato de inteligência e segurança, da cooperação de países amigos e aliados. Não há indício de que ele estenderá a mão a adversários para afirmar sua liderança num país que saiu da eleição mais dividido do que nunca e caminha em terreno político não mapeado. Conciliação não é o estilo do novo líder dos EUA.

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JORNALISTA, É DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, EM WASHINGTON