Artigo: Partido dos predadores

Artigo: Partido dos predadores

Uma das desculpas que estamos ouvindo é que as novas revelações sobre TRump são qualitativamente diferentes – uma coisa é desrespeitar as mulheres, mas outra é gabar-se de abuso sexual

Redação Internacional

11 de outubro de 2016 | 05h00

Paul Krugman
COLUNISTA DO ‘NYT’

Como muitas pessoas estão apontando, os republicanos que agora buscam se distanciar de Donald Trump precisam explicar por que “a gravação” é considerada um ponto de ruptura, após tantos incidentes anteriores terem sido tolerados. No sábado, explicando por que estava retirando seu apoio, o senador John McCain citou “comentários a respeito de prisioneiros de guerra, da família do capitão Khan, do juiz Curiel e comentários inapropriados anteriores envolvendo mulheres” – para não falar na descrição dos mexicanos como estupradores e tantos outros absurdos. Bem, senador McCain, por que demorou tanto?

Uma das desculpas que estamos ouvindo é que as novas revelações são qualitativamente diferentes – uma coisa é desrespeitar as mulheres, mas outra é gabar-se de abuso sexual. Trata-se de uma defesa fraca, já que, na prática, Trump vem prometendo violência contra as minorias desde o início. Na semana passada, a insistência dele de que os envolvidos no Quinteto do Central Park – inocentados pelas provas de DNA – deveriam ter recebido pena de morte foi pior que “a gravação”, mas não causou denúncias de seu partido.

FILE - In this June 3, 2016, file photo, Sen. John McCain, R-Ariz., greets the audience as he arrives to deliver his speech titled

O senador republicano John McCain. Foto: Wong Maye/AP

E ainda que consideremos os predadores sexuais particularmente inaceitáveis, temos de nos perguntar onde estavam esses republicanos em agosto, quando Roger Ailes – demitido da Fox News após evidências de que usava sua posição para obrigar mulheres a manter relações sexuais com ele – entrou para a campanha de Trump como conselheiro. Onde estavam os protestos dos grandes nomes do Partido Republicano?

É claro que sabemos a resposta: o escândalo mais recente decepcionou os republicanos mais do que os anteriores, pois a campanha do candidato já está em queda livre. Podemos até ver os números: a probabilidade de um congressista republicano abandonar a campanha de Trump está ligada à proporção dos votos de seu distrito que ficaram com Barack Obama em 2012. Ou seja, os republicanos de distritos disputados estão indignados com o comportamento de Trump. Os com cadeira mais garantida, parecem indiferentes.

Enquanto isso, o eixo de abuso Trump-Ailes nos leva a outra questão: será que os predadores sexuais na política – Ailes era um nome importante da política, embora fingisse estar no ramo do jornalismo – são um fenômeno que afeta um só partido?
Para deixar claro, não estou falando do mau comportamento em geral, que ocorre entre políticos (e pessoas) de todas as inclinações. Sim, Bill Clinton teve casos extraconjugais, mas há uma imensa diferença entre o sexo consensual, independentemente do quão inapropriado, e o abuso de poder para obrigar pessoas menos poderosas a aceitar seus impulsos.

Analisemos, por exemplo, que sabemos hoje a respeito do que ocorreu no cenário político em 2006, ano que, segundo o especialista em pesquisas de intenção de voto Nate Cohn, oferece algumas lições para este ano. Como indica Cohn, até setembro de 2006, tudo indicava que os republicanos conservariam o controle do Congresso, apesar da aversão pública ao governo Bush. Mas então surgiu o escândalo de Mark Foley: o congressista vinha enviando mensagens sexualmente explícitas a determinadas páginas e o partido não tomou nenhuma atitude, apesar dos alertas.

Por que todas essas histórias envolvem republicanos? Uma resposta pode ser estrutural. O Partido Republicano é (ou era até esta eleição) uma instituição monolítica e hierárquica, na qual homens poderosos podiam ocultar seus pecados mais facilmente do que na coalizão democrata, muito mais permeável.

E há também, acredito, um cinismo subjacente que permeia a elite republicana. Estamos falando de um partido que há muito explora as reações do eleitorado branco para mobilizar a classe trabalhadora, ao mesmo tempo aprovando políticas que prejudicam esses eleitores e beneficiam os mais ricos. Aqueles que participam dessa fraude devem ter a sensação de que a política é uma esfera na qual se pode escapar impunemente de muita coisa, desde que tenhamos as conexões certas. Assim, num certo sentido, não surpreende que um número desproporcional de nomes de peso se sintam no direito de abusar do poder de sua posição. Em outras palavras, Trump não é uma anomalia, mas o puro destilado da essência moderna de seu partido.

paul.krugman@estadao.com