Artigo: Partido Republicano de meus sonhos

Artigo: Partido Republicano de meus sonhos

Ele seria uma opção séria de centro-direita, acreditaria firmemente em um governo limitado e proporia políticas coerentes com essa crença

Redação Internacional

16 Agosto 2016 | 05h00

Fareed Zakaria
The Washington Post

Nos últimos dias, venho tendo um sonho: que os EUA têm um Partido Republicano de verdade, que é uma opção séria de centro-direita ao Partido Democrata. Tal confronto de ideias aprimoraria o debate público e permitiria aos americanos uma escolha real, não a com base na campanha de cartazes que temos hoje.

Donald Trump teve na semana passada a oportunidade de reajustar sua campanha e preferiu deixá-la descarrilar. Mas esqueçamos por um momento esse desvio. O tão anunciado discurso de Trump sobre sua política econômica foi uma mistura confusa de populismo, hipocrisia e empenho em dizer o que achava que o público queria ouvir.

Ele prometeu protecionismo, guerra comercial e corte de impostos para os ricos, propondo ainda que não seja mudado o programa de crescimento rápido a que os americanos têm direito. Foi ideologicamente incoerente e fiscalmente irresponsável.

Quando começou essa decadência intelectual republicana? Segundo o escritor conservador David Frum em seu brilhante livro Dead Right, começou nos anos Reagan. Historicamente, o Partido Republicano é totalmente favorável à disciplina fiscal. Reagan atacou maldosamente Jimmy Carter por acumular déficits e débitos. Na verdade, no fim dos dois mandatos de Reagan a dívida nacional havia triplicado.

Os republicanos acabaram reconhecendo que o público, na verdade, não quer cortes nos programas governistas. O país é, na definição de George Will, “ideologicamente conservador, mas operacionalmente liberal”. Essa era a hora da verdade para os republicanos, segundo Frum, e eles piscaram.

Desde então, a maioria dos candidatos presidenciais republicanos vem prometendo aos eleitores grandes cortes de impostos sem nenhuma restrição de gastos para pagar por eles. O resultado, claro, são amplos déficits. O único republicano que tentou aderir a alguma noção de conservadorismo fiscal, George H. Bush, foi, por esse pecado, atacado e destruído por conservadores liderados por Newt Gingrich.

Os planos econômicos republicanos de hoje simplesmente não são sérios. Nas primárias, os três principais candidatos do “partido da disciplina fiscal” – Marco Rubio, Ted Cruz e Donald Trump – apresentaram planos que acrescentariam US$ 8 trilhões, US$ 10 trilhões e US$ 11 trilhões à dívida na próxima década (segundo a organização não partidária Tax Policy Center).

Mesmo o mui respeitado Paul Ryan propôs um plano com um buraco de US$ 2,4 trilhões. Essas enormes brechas vinham embaladas na mágica presunção de maior crescimento e nas vagas promessas de redução do desperdício, da fraude e do abuso. (Goste-se ou não do plano econômico de Hillary Clinton, seus números somam, não subtraem.)

Os planos de Trump são uma réplica dessas técnicas desonestas. Ele propõe grandes cortes de impostos, mas é claro que sem pagar por isso, confiando nos usualmente falsos números do crescimento econômico para tornar esses planos mais palatáveis. Prometeu cortar regulamentações, tendo afirmado que poderia reduzi-las em 70% ou 75% – o que é tão absurdo que não acho que nem mesmo ele acredite. Ao pacote, acrescentou protecionismo, mas mesmo aí a técnica é a mesma: fazer promessas insanas que sabe que não conseguirá cumprir.

Imagine-se, em lugar disso tudo, um Partido Republicano que acreditasse firmemente em governo limitado – e propusesse políticas coerentes com essa crença. Esse governo poderia apresentar um plano sério que racionalizasse o desajeitado e corrupto código de impostos americano, simplificando a estrutura e mesmo cortando taxas – mas apenas na extensão em que fossem realmente pagas pelo aumento dos ingressos conseguido com o enxugamento de deduções e créditos.

Imagine-se um Partido Republicano que focalizasse menos no corte de impostos para os ricos e mais na melhoria do acesso ao mercado para os pobres e a classe média. Por exemplo, um partido que propusesse não acabar com o Obamacare, mas reformá-lo usando mecanismos de mercado mais fortes, que permitissem maior competição e transparência em preços e serviços.

Imagine-se um partido que apresentasse planos específicos para cortar regulamentações que criam obstáculos à formação e crescimento de pequenos negócios e encorajasse grandes empresas a contratar mais empregados e fazer novos investimentos. Um partido que encorajasse os Estados a se livrar dos cada vez mais caros requerimentos de licença criados para impedir a concorrência.

Nos anos 50, menos de 5% dos negócios precisavam de licença para funcionar. Hoje, 29% precisam, a um custo de cerca de 3 milhões de postos de trabalho, segundo o professor Morris Kleiner, da Universidade de Minnesota. Segundo estudo da Fundação Kauffman, pequenos negócios se preocupam mais com o excesso de regulamentação que com impostos.

Sistemas políticos precisam de debates e escolhas. Mas, para que estes sejam úteis, os dois lados têm de aceitar certas regras informais – de que suas propostas sejam sérias e coerentes e seus números venham a acrescentar. Os EUA se beneficiariam grandemente se o Partido Republicano focalizasse em seus ideais profundos e fosse um partido decisivamente de centro-direita voltado para o mercado. Por enquanto, isso continua um sonho. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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