Artigo: Por que Trump é diferente

Artigo: Por que Trump é diferente

O risco representado pelo candidato republicano não está apenas no que ele disse na campanha, mas em seus atos ao longo da vida

Redação Internacional

06 de novembro de 2016 | 05h00

Fareed Zakaria*
The Washington Post

No curso desta campanha, muitas pessoas têm aplaudido minha oposição a Donald Trump. Mas há outras que discordam, afirmando que estou sendo parcial e Hillary Clinton tem muitos defeitos também. Portanto, permita-me explicar uma última vez porque Trump merece atenção especial.

Não sou alguém excessivamente partidário. Tenho opiniões à esquerda do centro e outras conservadoras. Cheguei a esse país quando Ronald Reagan era presidente e o admirava. Respeito muitos políticos republicanos, incluindo os últimos dois indicados à presidência, John McCain e Mitt Romney, personalidades ilustres que teriam sido bons presidentes.

Trump disse que Obama era 'estúpido' e o criticou por fazer campanha para a democrata Hillary (FOTO: Damon Winter/The New York Times)

Trump disse que Obama era ‘estúpido’ e o criticou por fazer campanha para a democrata Hillary (FOTO: Damon Winter/The New York Times)

Trump é diferente. Não só porque é um indivíduo repulsivo, deselegante e vulgar, ou porque seus negócios mostram que é um embrulhão. Ele é diferente por aquilo em que acredita.

A maneira mais simples de saber suas crenças é analisar suas palavras e ações não neste período, mas muito antes desta campanha. Os políticos sempre procuram consentir com seus eleitores e as opiniões de Trump sobre a Previdência Social e o Medicare (que promete não tocar) ou sobre os impostos (que promete reduzir) soam muito falsas, reflexo do que acha que seus eleitores querem ouvir. Ele tem crenças, valores e instintos mais profundos.

A primeira refere-se a raça. Trump manifestou-se muitas vezes, com palavras e ações, de uma maneira que só pode ser descrita como racista. Nos seus primeiros anos como incorporador imobiliário, foi processado pelo Departamento de Justiça por ter, segundo o alegado, proibido a locação de apartamentos para interessados negros.

Trump acredita profundamente nos estereótipos étnicos. Faz alarde da sua própria linhagem e a compara à criação de cavalos de corrida. Num livro publicado em 1991, um dos seus sócios afirma que ele ficou horrorizado ao saber que havia afro-americanos nos departamentos contábeis de dois dos seus hotéis, afirmando: “Negros contando meu dinheiro? Odeio isso. As únicas pessoas que eu quero que contem meu dinheiro são os homenzinhos que usam quipá todo dia”. Trump admitiu serem verdadeiros esses comentários numa entrevista concedida à Playboy, mas voltou atrás em 1999 em uma entrevista para a NBC, dizendo que a história era “absurda”.

Trump também sempre foi protecionista. Na década de 80, disse que estava certo de que os japoneses estavam prestes a dominar o mundo e a única solução eram as tarifas e as guerras comerciais. Ele não percebeu que o futuro que previa jamais chegou. Não dissuadido, agora ele concentra seu ódio na China, exatamente quando a economia desse país começa a desacelerar, e no México, país cujo efeito na economia americana é mínimo. Trump se apressa em dizer para os americanos com grandes dificuldades econômicas que os estrangeiros é que são culpados pelos seus problemas.

Há uma opinião que Trump tem expressado repetidas vezes, abertamente e com entusiasmo: as mulheres existem fundamentalmente para serem objetos do prazer masculino. Afirmou e agiu durante 30 anos confirmando sua visão degradante das mulheres – quando tinha a propriedade do concurso de Miss Universo, quando descreveu as mulheres trabalhadoras e quando debateu com candidatas como Carly Fiorina e Hillary Clinton.

Trump deixou claros sua irritação e seu desprezo por muitas das bases da democracia liberal. Já prometeu inúmeras vezes mudar as leis para tornar mais fácil a punição de jornalistas que o ofendem. Tem ameaçado pessoas que contribuíram para seus oponentes republicanos, sugerindo que seu governo irá investigar seus negócios. E propôs inúmeras medidas de caráter político potencialmente inconstitucionais ou crimes de guerra, como proibir a entrada de muçulmanos nos EUA, submeter a tortura suspeitos de terrorismo e matar suas famílias. Comparou suas ideias aos campos para cidadãos com dupla nacionalidade, japonesa e americana, durante a 2.ª Guerra, dando a entender que apoiou a medida. E ameaçou enviar sua oponente para a prisão caso eleito.

São as opiniões básicas expressadas por Trump há décadas e confirmadas por ações. Suas ideias sobre impostos e regulamentos são irrelevantes. O que você pensa a respeito de Hillary é irrelevante. Trump não é um candidato normal. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É COLUNISTA

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