Artigo: Ranger os dentes e dar uma chance a Trump

Ele nos surpreendeu emvários aspectos e só nos resta rezar para que surpreenda novamente e remende os rasgos que provocou

Redação Internacional

11 de novembro de 2016 | 05h00

Nicholas Kristof
THE NEW YORK TIMES

Os integrantes do grupo de 52% de eleitores que apoiaram outro candidato e não Donald Trump devem seguir em frente e chorar. Quando um ex-líder da Ku Klux Klan como David Duke comemora o triunfo político dos seus valores, como não lamentar pelos nossos?

Gostem ou não, os americanos têm um novo presidente eleito e é hora de olhar para a frente. Presenciei eleições vistas como o fim do mundo, incluindo a vitória de Ronald Reagan, em 1980. A república sobreviveu. Desta vez, também, as instituições são mais fortes do que qualquer homem. Os EUA não são a Alemanha de Weimar.

A republicano Donald Trump será o 45º presidente dos EUA (FOTO: AFP PHOTO / Timothy A. CLARY)

A republicano Donald Trump será o 45º presidente dos EUA (FOTO: AFP PHOTO / Timothy A. CLARY)

Foi vergonhoso o que muitos republicanos tentaram para levar Barack Obama ao fracasso. Hoje, mesmo tendo perdido, é preciso ranger os dentes e dar uma chance ao presidente Trump, em favor do país. Dito isso, Trump disse que revogará o Obamacare, deportará milhões de vizinhos nossos, instituirá testes de religião e abolirá todos os atos de Obama sobre a mudança climática, além de mover a Suprema Corte para a direita. Como os progressistas devem responder a isso, senão com resistência ou migração?

Quando ficou claro que Trump ganharia, o website do Canadá para imigração caiu por excesso de tráfego. Razões para retardar o pedido de visto canadense:

1. Trump é inexperiente e tem feito declarações radicais, mas não é ideológico. Ele não é contra o aborto, mas sugeriu que as mulheres devem ser punidas por abortar. Essa não é uma opinião que considera essencial. Porque Trump não tem essência. É um oportunista. Alardeou que construirá um muro e expulsará os muçulmanos, mas não o fará, pois essas ideias são impraticáveis (o muro custaria US$ 25 bilhões).

Trump seria mais perigoso em política externa, mas é perfeitamente possível que nomeie como secretário de Estado um republicano experiente como Richard Haas, com Stephen Hadley na Defesa, indicando assim que adultos se encarregarão dessa área. As ideias de Trump com relação aos códigos nucleares são aterrorizantes, mas se ele der alguma ordem insana ninguém sabe se os assessores não tentarão mudá-la. Em 1974, quando o presidente Richard Nixon estava bebendo muito durante a crise de Watergate, seu secretário de Defesa, James Schlesinger, ordenou ao Exército que não obedecesse a nenhuma ordem da presidência sobre um ataque nuclear.

2. Os democratas rapidamente qualificaram os eleitores de Trump como pessoas deploráveis. Certamente, alguns são racistas ou misóginos, mas muitos são pessoas boas que votaram em Obama no passado e agora estão frustradas com as mudanças econômicas e o desaparecimento de bons empregos no setor de manufatura. Sentem-se traídas pelos establishments republicano e democrata.

Finalmente, um candidato se dirigiu a elas. Os americanos comuns não descambaram para a intolerância, mesmo apoiando um homem intolerante. Segundo pesquisa da Bloomberg, se Obama fosse autorizado a disputar um terceiro mandato, teria derrotado Trump por uma margem esmagadora, 53% contra 41%. E há quatro anos a eleição presidencial teve como candidatos um negro filho de mãe solteira e um mórmon.

3. Trump está absolutamente certo ao afirmar que o sistema econômico está falido para os americanos comuns, especialmente os homens da classe operária. Desde 1979, os salários reais basicamente não aumentaram para metade dos americanos de baixa renda. Chega de lamentar. Temos de aceitar o inevitável. Trump nos surpreendeu em vários aspectos e só nos resta esperar e rezar que o faça novamente, remendando os rasgos que provocou no nosso tecido social. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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