Artigo: Terremoto e réplica: as eleições de 2008 e 2016

Artigo: Terremoto e réplica: as eleições de 2008 e 2016

Em campanha com racismo e sexismo, americanos podem substituir seu primeiro presidente negro pela primeira mulher a ocupar a Casa Branca

Redação Internacional

09 de novembro de 2016 | 05h00

Matt Flegenheimer
THE NEW YORK TIMES

Já se passaram quase oito anos. Aqueles que se reuniram na época – curiosos, esperançosos, com frio – lembram de tudo: o oceano de rostos no National Mall; a energia, aumentando com a espera; a catarse de mais de um milhão de desconhecidos que encontraram um momento para festejar juntos, chorar juntos após uma campanha presidencial que, para eles, tinha afirmado o melhor dos EUA.

“Nesse dia, viemos proclamar o fim das diferenças mesquinhas e promessas falsas, as recriminações e os desgastados dogmas que por muito tempo estrangularam nossa política”, prometeu o presidente Barack Obama, após assumir o cargo. Eles lembram dessa promessa. Mas não se lembram de como ela pareceu possível então.

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Barack Obama durante cerimônia de posse de seu primeiro mandato

 

As eleições de 2008 e 2016, momentos políticos que não podem ser separados: um terremoto e sua réplica, jogando a psique americana numa era de espetacular contradição. Um presidente de saída e cada vez mais popular está liderando um país que, para a maioria dos eleitores, segue no rumo errado.

A insegurança econômica generalizada cresce num momento de relativa estabilidade econômica (as estatísticas demonstram), oito anos após uma crise financeira ter parecido para alguns apenas um ponto no caminho do “Yes, we can”. E uma campanha repleta de racismo e sexismo escancarados pode chegar ao seguinte desfecho: os americanos substituirão seu primeiro presidente negro pela primeira chefe de Estado mulher.

Se 2008 foi um emblema do progresso em pelo menos um critério, 2016 exigiu a triste aceitação dos limites, frustrações, pontos cegos – um país olhando atentamente para seu interior, e tremendo diante da visão.

Uma pesquisa realizada este mês pelo New York Times e pela emissora CBS News revelou que 82% dos eleitores se sentiam mais enojados com a política americana em razão dessa campanha. Entre os eleitores de Trump, 97% disseram que se sentiriam preocupados ou temerosos numa eventual presidência de Hillary Clinton. Já 95% dos eleitores de Hillary disseram o mesmo a respeito de uma eventual presidência de Donald Trump.

Temos a tendência de higienizar as eras políticas passadas ao recontá-las, traçando linhas retas no lugar das originais, mal traçadas. É claro que havia sinais de instabilidade pelo caminho: o aumento na desigualdade de renda, afetando a classe média; a preponderância de veículos jornalísticos partidários; a transformação do funcionamento do Congresso. As amargas divisões do tipo tinham emergido muito antes de Trump ter incluído seu nome no processo democrático.

Não seria surpreendente que muita coisa piorasse antes de melhorar. As pessoas perderam seus empregos, poupanças, lares. Alguns olharam para o presidente e o viram distante, impotente, insuficiente. Em sua maioria, não eram pessoas abertamente preconceituosas. Na verdade, muitos republicanos insistiram na época que torciam pelo sucesso de Obama.

No entanto, havia dois lados também em 2008, e muitos milhões de eleitores preocupados com o resultado. A candidata a vice de John McCain, Sarah Palin, ajudou a fazer com que o movimento que se tornaria o Tea Party florescesse – insurgência que influenciou a versão própria de Trump – ao exportar a raiva de seus eventos de campanha para um amplo público, enquanto alguns assessores de McCain se mostravam horrorizados com aquilo a que haviam dado vazão.

A ascensão de Obama ocorreu em meio a expectativas impossíveis, criadas principalmente por ele. O sucessor de sua preferência assumiria o cargo com o pressuposto que pouco poderá mudar. Trata-se de uma reviravolta grave para aqueles contentes com a perspectiva de uma mulher na presidência.

E também de uma triste confirmação das críticas originais de Hillary a Obama. Foi ela que, em 2008, pareceu caçoar do otimismo da mensagem dele nas primárias democratas, a confiança na força de sua personalidade, que seria suficiente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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