Artigo: Trump, sexo e muitas lamúrias

Em entrevista coletiva, Trump se colocou no papel de vítima e tentou mudar o foco do assunto principal

Redação Internacional

13 Janeiro 2017 | 05h00

Gail Collins
THE NEW YORK TIMES

 

Finalmente, Donald Trump deu uma entrevista coletiva. E certamente vocês querem saber a parte referente ao sexo na Rússia. Esta semana, o mundo tomou conhecimento de um dossiê redigido por um funcionário da inteligência britânica sobre a relação entre a campanha de Trump e os russos.

O caso incluiu algumas especulações sobre a existência de vídeos comprometedores de Trump participando de jogos eróticos num hotel russo, que poderiam explicar seu entusiástico apoio a Vladimir Putin.

Donald Trump voltou a usar o Twitter para criticar a imprensa americana (AFP PHOTO / DON EMMERT)

Donald Trump voltou a usar o Twitter para criticar a imprensa americana (AFP PHOTO / DON EMMERT)

Um resumo do relatório, que é antigo, foi divulgado no briefing que Trump recebeu das agências de inteligência na semana passada. Mas surgiu na internet uma versão do texto, naturalmente durante a entrevista de Trump, na quarta-feira. Aqui estão algumas coisas que ficamos sabendo na coletiva.

* O motivo pelo qual ele não responde às perguntas dos repórteres desde julho é que “as notícias são inexatas”.
* Os russos não têm gravações secretas dele comportando-se de maneira inadequada, pois toda vez que se hospeda num hotel no exterior, adverte todo mundo: “Tomem cuidado, porque em seus quartos e em todos lugares aonde vocês forem, provavelmente haverá câmeras instaladas”.
* Ele não venderá suas empresas, mas seus dois filhos adultos se encarregarão de dirigi-las.
* Ele divulgará o valor dos seus impostos assim que terminar o trabalho da auditoria.
* “A posse será “um evento lindo”, pois “somos muito talentosos”.
* Se Putin gosta de Trump, considero uma vantagem, não um problema.

Esperamos muito tempo para ouvir Trump falar de seus negócios e sua recusa em abrir mão deles deixou malucos os guardiões da ética. Mas, na quarta-feira, toda a questão foi esquecida por causa do estardalhaço causado pelo relatório deixado vazar e a celeuma provocada em torno da relação de Trump com Putin, e sua teoria a respeito das câmeras.

Este tipo de diversão de assuntos poderia ser obra de um gênio da política, na realidade é dessa maneira que a mente do próximo presidente parece trabalhar, pulando daqui pra lá. A única preocupação é o que isso tudo significa para Trump.

Quando se tocou no relatório, ele entrou no papel da vítima, culpando os serviços de inteligência, que comparou, com originalidade e cuidadosa escolha das palavras, aos nazistas.

É preciso lembrar que, embora os investigadores do governo tenham analisado essas acusações há muito tempo, nunca foram divulgadas na campanha. “Jamais houve um comentário a respeito das investigações – num foro aberto, como esse”, disse o diretor do FBI, James Comey em audiência no Senado, esta semana.

Ele é a mesma pessoa que informou ao Congresso, 11 dias antes das eleições, que o FBI estava investigando e-mails de Hillary Clinton encontrados num laptop de Anthony Weiner, ex-marido de sua assessora e famoso autor de textos eróticos.

Posteriormente, o FBI anunciou nada ter encontrado. Ao mesmo tempo, eleitores que já estavam votando em alguns Estados passaram a relacionar Hillary a um sujeito, Weiner, que enviado fotos de suas partes íntimas a mulheres desconhecidas. Hillary acha que isso lhe custou a eleição.

Desde a eleição, a mídia e políticos democratas não se conformam por terem sido incapazes de prestar atenção à ira dos Estados que apoiaram Trump. Mas devemos finalmente lembrar que há cerca de 60 milhões de eleitores de Hillary que também têm o direito de estar revoltados. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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