Artigo: Trump, um novo começo ou loucura?

Presidente eleito age de forma irresponsável quando menospreza relatórios da CIA sobre hackers russos ou ignora cientistas do governo

Redação Internacional

16 Dezembro 2016 | 05h00

Thomas L. Friedman
THE NEW YORK TIMES

Talvez tudo dê certo. Se der, prometo aplaudir. Mas seja qual tenha sido a conjunção de motivos que levou os EUA a criarem uma maioria no colégio eleitoral para fazer de Donald Trump presidente – e ignorar seu despreparo, seu comportamento indecente, seus loucos tuítes noturnos, suas mentiras sobre pessoas votando ilegalmente, as notícias falsas divulgadas por seu assessor de Segurança Nacional, sua afoiteza em nomear céticos sobre as mudanças climáticas, sua negação das conclusões da CIA sobre hackers russos influenciando as eleições –, não tenham dúvidas de uma coisa: como país, os americanos fizeram algo incrivelmente irresponsável.

Não me entendam mal: é desculpável levantar dúvidas sobre mudanças climáticas. O que é indesculpável é não dialogar com especialistas do próprio governo, da Nasa e da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera para uma discussão antes da indicação de céticos das mudanças climáticas, sem formação científica, para os altos cargos referentes ao meio ambiente.

É desculpável questionar se a Rússia realmente hackeou nossa eleição. Mas é indesculpável afastar essa possibilidade sem ouvir o relatório da CIA. Isso é comportamento irresponsável – totalmente incompatível com um presidente, um profissional ou mesmo um adulto sério.

Não que todas as metas de Trump sejam erradas ou doidas. Se ele conseguir remover barreiras à inovação, aos investimentos em infraestrutura e ao empreendedorismo, será ótimo. E não sou totalmente contra trabalhar de perto com a Rússia em assuntos globais, ou endurecer um pouco no comércio com a China. Mas crescimento que não leve em conta o meio ambiente, colaboração com a Rússia que ignore a malevolência de Vladimir Putin e aumento da agressividade com a China sem considerar o cuidadosamente estabelecido equilíbrio entre EUA, China e Taiwan é irresponsável.

Para um governo que perdeu por tão grande margem no voto popular, levar tão bruscamente o país a tais posições extremas em energia, meio ambiente e política exterior é procurar encrenca e vai levar a retrocesso.

Alguns parlamentares do Partido Republicano que amam mais o país do que temem os tuítes de Trump – como os senadores Lindsey Graham e John McCain – já insistem em que os aparentes ataques cibernéticos da Rússia sejam investigados pelo Congresso. Se o Congresso confirmar o que a comunidade de informações acredita – que a Rússia interveio em nosso processo democrático –, trata-se de um ato de guerra que exige como resposta as mais severas sanções econômicas.

Vamos imaginar que, em seis meses, a CIA conclua que a Coreia do Norte esteja a ponto de aperfeiçoar um míssil nuclear com capacidade de atingir os EUA e Trump ordene um ataque preventivo, que levaria muita instabilidade à Ásia. Então, no dia seguinte, Trump e seu assessor de segurança nacional, Mike Flynn, o fornecedor de notícias falsas sobre Hillary Clinton, se defendam afirmando: “Agimos confiando na informação da CIA”. Quem vai acreditar neles, depois que desmoralizaram a CIA?

Por último, Trump vem demonstrando uma preocupante ingenuidade sobre Putin. O líder russo queria que Trump vencesse por acreditar que sua presidência trará o caos que enfraquecerá a influência americana no mundo, enfraquecendo a capacidade dos EUA de liderarem uma coalizão para confrontar a agressão de Putin na Europa. Então, Trump precisa mandar uma taxativa mensagem a Putin: “Não sou trouxa”.

Como disse o especialista em democracia Larry Diamond, da Universidade Stanford, num ensaio para a revista The Atlantic na semana passada, “o problema mais urgente em política externa é hoje como os EUA responderão à crescente ameaça que Putin representa para a liberdade e seu maior sustentáculo, a aliança ocidental. Nada vai moldar mais profundamente o mundo em que vivemos do que o modo como o governo Trump responderá a esse desafio”/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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