Artigo: WikiHillary para presidente

Documentos divulgados pelo site de Julian Assange provam que candidata democrata tem ideias certas para a economia e para a sociedade dos EUA

Redação Internacional

20 Outubro 2016 | 06h00

* Thomas Friedman
THE NEW YORK TIMES

 

Confesso: já estava começando a imaginar quem é a verdadeira Hillary Clinton – aquela dos bastidores. Mas agora que, graças ao WikiLeaks, tive a chance de conhecer seus discursos ao Goldman Sachs e a outros bancos, estou mais convencido que nunca de que ela será a presidente de que os EUA precisam.

Os discursos são ótimos. Mostram alguém com uma pegada pragmática para resolver as coisas – e com um saudável instinto para equilibrar a necessidade de fortalecer o tecido social deixando livre a classe empresarial para criar a riqueza necessária à sustentação de programas públicos.

Assim sendo, obrigado, Vladimir Putin, por revelar como Hillary espera governar. Eu apenas gostaria que mais dessa Hillary estivesse em campanha, preparando um mandato com base no que ela realmente acredita. WikiHillary? Estou com ela.

Por quê? Vamos começar pelo que o WikiLeaks afirmou que ela disse em um evento do Banco Itaú, do Brasil, em maio de 2013: “Penso que precisamos de um plano conjunto para ampliar o comércio. Temos de resistir ao protecionismo e a outras barreiras ao comércio e ao acesso ao mercado”. E mais: “Meu sonho é um mercado comum hemisférico, com comércio e fronteiras abertos, com energia verde e tão sustentável quanto possível, impulsionando crescimento e dando oportunidades a todos”.

Isso é música para meus ouvidos. Um hemisfério em que as nações negociem umas com as outras, em que mais pessoas possam colaborar e interagir para trabalhar, estudar, fazer turismo e negociar será uma região mais próspera, com menos conflitos, especialmente se esse crescimento se basear em energia limpa.

Basta comparar nosso hemisfério, ou a União Europeia, ou os países da Ásia voltados para o comércio, com o Oriente Médio – onde o fluxo comercial, o turismo, o conhecimento e a circulação da força de trabalho entre nações há muito estão restritos.

É ridículo como Bernie Sanders e Donald Trump transformaram comércio e globalização em palavrões. Globalização e comércio ajudaram mais pessoas a sair da pobreza nos últimos 50 anos que em qualquer outro período da história.

É claro que serão necessários ajustes para que a minoria da população dos EUA prejudicada por um comércio mais livre e movimentação da força de trabalho seja compensada e mais bem protegida. A isso se chama resolver um problema – e não jogar fora todo um sistema que contribui para equilibrar crescimento econômico, competitividade e sociedades mais abertas.

Contas. Num discurso para um grupo do Morgan Stanley, em abril de 2013, WikiHillary parabenizou o plano Simpson-Bowles de redução de déficit. Esse plano inclui a reforma do código tributário para incrementar investimentos e empreendedorismo, bem como o aumento de alguns impostos, enxugamento de gastos e regulamentações para tornar esses investimentos mais sustentáveis. Ela está certa. Não vamos sair desse atoleiro econômico e proteger gerações futuras a menos que empresas e setores sociais, democratas e republicanos, todos, deem e recebam algo – e é exatamente o que sugere o WikiHillary.

Também se vê Hillary, ou seus assessores, pensando num “imposto sobre o carbono”, venham ou não a defendê-lo, como fez Sanders. Ela decidiu que por enquanto não – provavelmente para não ser acusada pelos republicanos de propor um novo imposto em plena campanha eleitoral. Mas creio que incluirá a taxação do carbono em sua política climática.

Quando leio o WikiHillary, ouço uma política inteligente, pragmática, de centro-esquerda, inclinada a trabalhar tanto com a comunidade empresarial quanto com os republicanos para manter os EUA voltados à expansão do comércio, ao empreendedorismo e à integração global, redobrando esforços para proteger trabalhadores dos pontos negativos dessas políticas. Lamento apenas que, em campanha, Hillary não fale como no WikiHillary sobre o mandato ideal.

Graças ao WikiLeaks, reforcei minha convicção de que Hillary tem os instintos certos nos assuntos que mais me preocupam. Assim, mais uma vez obrigado, Putin, por nos mostrar essa Hillary. Ela pode vir a ser uma ótima presidente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA