Artigo: As pesquisas que contam

Artigo: As pesquisas que contam

Campanhas podem recorrer a sondagens com pequenos números e informações mais específicas para obter previsões mais precisas

Redação Internacional

04 de novembro de 2016 | 05h00

Jim Messina
The New York Times

A poucos dias da eleição, americanos se perguntam se as pesquisas são para valer ou os EUA vão viver um choque do tipo Brexit. Mas não são só os eleitores que têm essas dúvidas. Na véspera da eleição de 2012, eu, como gerente da campanha para a reeleição do presidente Barack Obama, fui convocado para me reunir com ele num comício em Milwaukee.

“O Gallup diz que estou 3 pontos atrás; outras pesquisas me põem na cola do adversário, ou empatado com ele, ou ligeiramente na frente”, disse Obama. “Suas projeções, porém, dão esta corrida como basicamente ganha. Por que estaríamos certos e eles errados?”

Hillary tenta conter possíveis danos à sua campanha após FBI reabrir investigação por uso de e-mail privado; Trump intensificou seus ataques contra a democrata (FOTO: AFP PHOTO / Paul J. Richards)

Hillary tenta conter possíveis danos à sua campanha após FBI reabrir investigação por uso de e-mail privado; Trump intensificou seus ataques contra a democrata (FOTO: AFP PHOTO / Paul J. Richards)

As melhores campanhas não se preocupam com pesquisas nacionais. Na disputa de 2012, nos concentramos num levantamento próprio para determinar as chances de Obama de vencer em Estados indefinidos. Isso abrangia pesquisas estaduais e telefonemas de voluntários, mas não pesquisas nacionais.

Em Milwaukee, assegurei que o levantamento previa sua vitória, com 332 votos no Colégio Eleitoral. No dia da eleição, foi exatamente esse o número com que o presidente venceu.
Hoje, as campanhas podem rastrear tão bem os eleitores que conseguem personalizar o diálogo com eles. Esse é o único modo de dar uma posição verdadeira quando um candidato pergunta como está a corrida.

Hillary Clinton pode fazer isso. Até onde sei, Donald Trump, que se gaba de não ligar para números durante a campanha, não pode.

Quando começamos a trabalhar pela reeleição do presidente, adotamos um princípio na equipe de que nossas certezas seriam todas testadas e nosso trabalho seria constantemente avaliado e aprimorado. Nenhum detalhe era desprezado. Podíamos também argumentar, com base em números, caso o presidente perguntasse se uma nova visita a Ohio era uma boa ideia (sempre era!).

Nos últimos dias, Trump fez campanha no Novo México, um Estado no qual não tem chances de vencer. Candidatos sempre podem arrecadar mais e ajustar sua mensagem, mas a única coisa que não podem é aumentar o tempo: cada hora desperdiçada num Estado não competitivo é um erro grave. Hillary continua na ofensiva em Estados como o Arizona, onde a disputa está apertada.

“Grandes números” é uma expressão consagrada, mas esse conceito está ultrapassado. As campanhas entraram na era dos “pequenos números”, informações mais específicas. Com elas, as campanhas podem manter conversas diretas, altamente personalizadas, com os eleitores. Em 2016, vemos que o engajamento político online (especialmente de eleitores jovens) está numa alta histórica.

É por isso que as campanhas não dão mais muita atenção a pesquisas públicas, que com frequência ouvem umas poucas centenas de pessoas para fazer previsões. Chegar a uma amostragem verdadeiramente representativa ficou mais difícil em razão da crescente porcentagem de casas que têm apenas celulares, ao número de eleitores que preferem falar outra língua que não o inglês e à dificuldade em contatar eleitores jovens, que geralmente não têm telefones fixos.

Campanhas inteligentes podem usar informações específicas para resolver esses problemas. Elas examinam registros públicos contendo nome, endereço, filiação partidária e histórico de participação eleitoral de cada eleitor registrado. Analisando esses dados, desenvolvem uma noção acurada da formação do eleitorado.

Mais do que confiar em estimativas de tendência a votar (frequentemente imprecisas), essas campanhas examinam o comparecimento passado do eleitor às urnas, formando, assim, uma ideia precisa de quem eles realmente são. Os veículos de mídia que fazem pesquisas nacionais normalmente não têm meios de fazer isso.

Mesmo as melhores pesquisas só conseguem falar de categorias gerais de eleitores – não ajudando muito numa conversa personalizada. Por exemplo, campanhas na Flórida não veem mais o eleitorado cubano-americano como um bloco monolítico – sabemos que jovens cubano-americanos são muito favoráveis ao Partido Democrata.

É crucial para as campanhas “bancar” seus eleitores e induzi-los a votar antecipadamente. Quando nos aproximamos do fim do ciclo eleitoral, o dinheiro bem gasto vai para campanhas – como a de Hillary – que estão fortalecendo o poder dos números para encontrar até os últimos possíveis eleitores. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É EXECUTIVO DO MESSINA GROUP E FOI GERENTE DA CAMPANHA DE OBAMA

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