Bandeira protecionista na eleição dos EUA deve impactar acordos comerciais com Canadá

Bandeira protecionista na eleição dos EUA deve impactar acordos comerciais com Canadá

Diplomatas canadenses têm viajado pelos EUA para promover acordos de livre comércio

Redação Internacional

08 de novembro de 2016 | 20h18

Lígia Morais
Especial para o Estado 

As televisões no Canadá estavam ligadas para transmitir os três debates entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos. Pelo canal público nacional, os canadenses puderam acompanhar ao vivo Donald Trump e Hillary Clinton criticarem a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês) de cooperação econômica, da qual os dois países fazem parte.

O TPP é o maior acordo de livre comércio do mundo, envolve 12 países da Ásia, Oceania, América do Norte e América do Sul, que representam cerca de 40% da economia global. A parceria estabelece critérios comuns de proteção ambiental, propriedade intelectual e relações trabalhistas.

Canada's Prime Minister Justin Trudeau looks out a cabin window while touring the CCGS Wilfrid Laurier during a boat tour of Burrard Inlet near Vancouver, B.C., Canada November 7, 2016. REUTERS/Ben Nelms

O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau. Foto: Ben Nelms/Reuters

Em entrevista ao canal americano PBS, Hillary Clinton disse não estar convencida de que a Parceria, que ajudou a consolidar quando era secretária de Estado da administração Obama, vá produzir novos empregos ou aumentar salários. As negociações do TPP acontecem desde 2008, e o tratado ainda precisa ser ratificado pelo Congresso americano.

“Os canadenses estão preocupados com que a política dos EUA se torne mais protecionista, independente de quem ganhar a eleição”, disse Michael Webb, cientista político da Universidade de Victoria, no Canadá. O professor afirma que a rejeição do acordo provavelmente seria melhor para o governo canadense, já que o TPP aumentaria o mercado dos EUA e facilitaria a importação de manufaturas mais baratas do que as do Canadá. “Porém, ainda há medo de que a rejeição faça com que os EUA adote uma postura mais protecionista em outras áreas da economia”, disse.

Segundo Webb, apesar do apoio a Hillary não ser contundente, a abordagem de Trump é vista como mais ameaçadora pelos canadenses. Durante a campanha, o candidato republicano já se posicionou contrário ao Nafta  (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), acordo comercial entre as três nações da América do Norte – EUA, Canadá e México. “Mesmo que Hillary vença e o NAFTA continue ativo, os EUA tendem a introduzir novas barreiras para restringir importações do Canadá”, afirma Webb.

De acordo com o Observatório da Complexidade Econômica (OEC, em inglês), 74% de todos os bens exportados pelo Canadá têm como destino os EUA, e 17% das importações canadenses vêm da nação vizinha. Por ser o país que mais importa bens americanos, diplomatas do Canadá têm viajado pelos EUA e feito reuniões para falar com líderes governamentais e empresários especificamente sobre os benefícios dos acordos de livre comércio.

“Estamos discutindo a importância da relação comercial entre os dois países e como o protecionismo teria impacto na relação saudável que têm as nações”, afirmou a porta-voz da Embaixada do Canadá nos Estados Unidos. São cerca de US$ 2 bilhões  que atravessam a fronteira todos os dias. Segundo a porta-voz, são 9 milhões de empregos americanos que dependem do comércio e do investimento com o Canadá. “Os EUA são o nosso maior parceiro comercial e estamos prestando bastante atenção ao diálogo nacional sobre muitos assuntos importantes, inclusive o TPP”, afirmou.

Para Michael Webb, “A cooperação internacional em todas as áreas seria mais difícil sob uma administração Trump do que sob uma administração Clinton”. O governo canadense sempre apoiou o multilateralismo, segundo o professor.

O primeiro ministro canadense, Justin Trudeau, do Partido Liberal, não declarou apoio a nenhum dos candidatos americanos. “A máquina governamental e a complexidade das relações entre os nossos dois países vão muito além de quaisquer duas personalidades que ocupem os cargos de governantes em determinada época”, disse Trudeau em entrevista à rede de televisão canadense CBC.

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