‘Bilionário é 1º caudilho moderno dos EUA’

‘Bilionário é 1º caudilho moderno dos EUA’

Para Clifford Young, diretor do Instituto Ipsos, o candidato republicano está gerenciando o medo que as pessoas sentem em relação ao futuro

Redação Internacional

18 de outubro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington 

Clifford Young passou oito anos na América Latina, durante os quais acompanhou a emergência de líderes populistas como Hugo Chávez e Evo Morales. Agora, ele usa os modelos que construiu para analisar esses movimentos para entender o fenômeno Donald Trump, a quem vê como o primeiro “caudilho” da história moderna dos EUA.

Diretor do Ipsos nos EUA, Young crê que a democrata Hillary Clinton tem hoje 70% de chance de vencer a eleição. Mas o sentimento que impulsionou Trump não vai desaparecer. A seguir, trechos da entrevista:

Ipsos managing director Clifford Young speaks at the Reuters Washington Summit in Washington September 20, 2010. REUTERS/Kevin Lamarque (UNITED STATES - Tags: POLITICS BUSINESS)

O diretor do Ipsos Clifford Young, em imagem de arquivo. Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Pesquisas dão sólida vantagem a Hillary Clinton. Há probabilidade de que o cenário mude?
Em junho, eu dava uma probabilidade de 53% de vitória para Hillary e de 47% para Trump, pois temos um cenário bastante diferente nesta eleição, com um sentimento antiestablishment e um eleitorado preocupado com o futuro, que acha que o sonho americano está acabando. Mas, no último mês, Trump perdeu espaço. Ele tem uma base sólida de 40%, 45%, mas não mais do que isso. Ele teria chance se transformasse o seu discurso em algo mais leve. Mas não vem fazendo isso e há todos esses escândalos que reforçam a percepção de que ele não tem uma imagem presidencial. Hoje, Hillary tem uma probabilidade de 70% de ganhar e ele, de 30%. Claro que o cenário pode mudar, mas a chance é baixa.

O que explica o fenômeno Trump?
É algo que tem muito menos a ver com ele do que com o cenário atual, tanto nos EUA quanto na Europa. Estamos em um mundo novo, no qual o populismo é mais forte. Tenho falado muito sobre um populismo no estilo latino-americano e estou adotando modelos que usamos para entender (Hugo) Chávez, (Evo) Morales e outros líderes e aplicando aos EUA e à Europa. Há um segmento da população, que gira em torno de 30% a 40%, que se sente cada vez menos integrado à sociedade, que sente que o sonho americano está acabando. É um voto de protesto contra o sistema.

Quais os elementos do populismo na América Latina que ajudam a entender o que ocorre nos EUA?
Desenvolvemos critérios que chamamos de ‘síndrome do caudilho’. A lógica que move esses eleitores é a seguinte: ‘Vivemos em um país rico, mas somos pobres. Por quê? Porque os ricos estão roubando e os políticos não se preocupam conosco. Precisamos de líderes fortes, que podem quebrar as regras para melhorar nossas vidas’. É o apelo que figuras como Trump ou Chávez têm.

Trump é o caudilho americano?
É. Para o caudilho, a política, as políticas públicas, não importam. O que importa é que ele está gerenciando os ânimos da população. Não creio que acredite em tudo o que fala. Mas está alimentando o medo sobre o futuro. Chávez fez isso. Kichner fez isso na Argentina. Ele se apresenta como o salvador da pátria, como um paladino. São caras que quebram todas as regras e destroem as instituições, o que no longo prazo tem um efeito negativo.

Isso é inédito na história moderna dos EUA?
Sim. No longo prazo, os EUA serão mais liberais, progressistas, cosmopolitas. Mas no curto a no médio prazos vamos ter esse tipo de populismo. As pessoas acham que sua vida é pior que a de seus pais e seus filhos terão uma vida pior que a delas. O Estado e o governo não têm uma resposta concreta para isso agora. Hillary não é uma resposta a esse medo. Ela vai ganhar porque não faz sentido Trump ganhar. Mas ela não é uma resposta para esse medo. Esse medo vai ficar.

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