Bill Clinton apresenta Hillary como a candidata da mudança

Ex-presidente americano diz que sua mulher deve ser eleita presidente para mudar o status quo

Redação Internacional

27 Julho 2016 | 00h06

Cláudia Trevisan
Enviada Especial, Filadélfia, EUA

Em um discurso recheado por lembranças pessoais, o ex-presidente Bill Clinton apresentou ontem sua mulher, Hillary Clinton, como uma mulher constantemente insatisfeita com o status quo e uma agente da mudança que deve ser eleita presidente dos EUA em novembro. As duas observações foram uma resposta indireta ao sentimento que move os americanos nesse ciclo eleitoral e que levou à emergência de outsiders como o republicano Donald Trump e o senador Bernie Sanders.

“As pessoas dizem que nós precisamos de mudanças. Que ela está aí há muito tempo. Com certeza ela está. E com certeza valeu cada segundo que ela dedicou a tornar as coisas melhores”, afirmou Clinton diante de milhares de delegados reunidos na convenção democrata na Filadélfia. “Hoje vocês nomearam uma mulher de verdade”, declarou, horas depois da nomeação da mulher na convenção do partido.

O ex-presidente lembrou a primeira vez que viu a futura mulher, na primavera de 1971. Depois de um breve flerte, Hillary teve a iniciativa de abordá-lo em uma biblioteca. “Se você vai continuar a olhar para mim, e agora eu estou olhando de volta, nós devemos ao menos saber os nossos nomes. Eu sou Hillary Rodham. Quem é você?”, disse Clinton. “Eu fiquei tão impressionado e surpreso que, acreditem ou não, fiquei sem palavras momentaneamente.”

O discurso de Clinton encerrou o dia em que Hillary conquistou a candidatura democrata, um dia depois de a convenção democrata ter sido aberta com vaias contra a ex-secretária de Estado por simpatizantes de Sanders.

Depois de os republicanos terem marcado sua convenção com o slogan “todas as vidas importam”, os democratas reunidos na Filadélfia cantaram ontem que “vidas negras importam”, a palavra de ordem que se transformou no símbolo dos protestos contra a morte de jovens negros nas mãos da polícia.

As mães de oito das vítimas subiram ontem ao palco da arena onde delegados se reuniram para pedir o fim da violência. Entre elas, estava a mãe de Trayvon Martin, o adolescente de 17 anos morto a tiros por um segurança em 2012. O autor dos disparos foi absolvido, depois de alegar que havia agido em defesa própria, apesar de Martin estar desarmado.

“Isso não tem relação com ser politicamente correto. Isso diz respeito a salvar nossos filhos”, disse a mãe de Martin, Sybrina Fulton, em uma referência às críticas de Donald Trump à correição política. “Hillary é a mãe que pode assegurar que nosso movimento tenha sucesso”, ressaltou, depois de conclamar os eleitores a votarem em novembro.

Segundo Fulton, Hillary é a única candidata com propostas razoáveis sobre o controle do porte de arma nos EUA. A democrata defende o aumento da checagem de antecedentes criminais dos compradores de armas e a restrição da venda de fuzis de assalto. Trump e os republicanos são contrários a qualquer limitação ao direitos dos americanos de se armarem. Entre os oradores da convenção republicana na semana passada estava um representante da Associação Nacional do Rifle, o grupo de lobby que representa a indústria de armas dos EUA.

“Muitos de nossos filhos se foram, mas eles não foram esquecidos”, afirmou Geneva Reed-Veal, mãe de Sandra Bland, que morreu no ano passado, quando tinha 28 anos. Detida por uma infração de trânsito banal, Bland foi encontrada enforcada em sua cela. “Eu estou aqui com Hillary Clinton nesta noite porque ela é uma mãe que vai salvar a vida de nossos filhos”, afirmou. “Ela sabe que quando uma vida jovem é interrompida, isso não é apenas uma perda pessoal, é uma perda nacional, é uma perda que nos diminui a todos.”

O grito “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) ganhou projeção nacional depois da morte de Michael Brown em 2014, que deu origem a protestos em várias cidades americanas e em Ferguson, onde vivia.

O movimento sofreu um revés no mês passado depois do assassinato de oito policiais por atiradores negros em Dallas, Texas, e Baton Rouge, na Louisiana. As mortes deram o tom da convenção republicana que formalizou a candidatura de Trump na semana passada. Muitos dos oradores gritaram o slogan “vidas azuis importam”, uma referência à cor do uniforme dos policiais, ou “todas as vidas importam”.