Bill Clinton: figura-chave na candidatura de Hillary e decidido a retornar à Casa Branca

Bill Clinton: figura-chave na candidatura de Hillary e decidido a retornar à Casa Branca

No segundo dia da convenção democrata, ex-presidente dos Estados Unidos tentou humanizar sua mulher e combater imagem de líder calculista e cega pela ambição

Redação Internacional

27 de julho de 2016 | 09h09

WASHINGTON – Ele já foi chamado de “The Comeback Kid” (“O garoto da virada”) por sua inesperada ascensão nas eleições de 1992 e agora Bill Clinton planeja retornar à Casa Branca por meio de sua mulher, uma façanha sem precedentes inclusive para esta figura política que não deixa os eleitores indiferentes nos Estados Unidos.

O ex-presidente americano de 69 anos é uma figura-chave na candidatura de Hillary Clinton, um fator indivisível que traz vantagens segundo alguns analistas e inconveniências para outros, mas que volta a tornar realidade o lema com o qual ambos se apresentaram pela primeira vez às eleições há 24 anos: “Dois pelo preço de um”.

O discurso que ele fez na terça-feira no segundo dia da Convenção Nacional Democrata foi, segundo seus assessores, um dos mais importantes de sua vida. Bill Clinton tentou humanizar sua mulher e combater a imagem de líder calculista e cega pela ambição que pode prejudicá-la nas eleições de novembro.

O ex-presidente relatou o dia “da primavera de 1971” quando conheceu “aquela menina sem maquiagem” em uma aula de Direitos Civis, e com a qual não se atrevia a falar, mas com quem desde então “não deixou de caminhar e rir a seu lado”.

“Ninguém pode fazer um melhor trabalho ao falar sobre as coisas que Hillary fez, as lutas nas quais se envolveu. Não só as que conhecemos, mas também as silenciosas”, disse antes do discurso o chefe de campanha de Hillary, Robby Mook, aos jornalistas.

Essa tarefa não é nova e costuma corresponder ao cônjuge do candidato presidencial, mas no caso de Clinton estava agregada à curiosidade de tratar-se do possível primeiro “primeiro-cavalheiro” na história do país, e o peso que representa o fato de que esse pioneiro seja também um ex-presidente.

A candidata democrata antecipou que, se chegar ao poder em janeiro, planeja “utilizar” seu marido para “revitalizar a economia” centrando-se nas áreas mais pobres do país, uma vez que governou durante o período de crescimento econômico mais longo na história dos Estados Unidos (1993-2001).

Esse plano provocou algumas críticas dos que consideram que Bill ofuscaria o papel tradicional do Departamento do Tesouro na economia, mas outros acreditam que o ex-presidente é muito mais um ativo do que um empecilho na proposta democrata para a Casa Branca.

“Acredito que o ex-presidente proporciona um atrativo considerável a Hillary como candidata”, disse recentemente o professor de gestão política da Universidade de George Washington, Christopher Arterton.

Em 2012, Clinton se transformou em um ativo-chave para a campanha de reeleição de Barack Obama precisamente por seu manejo da economia e seu apelo entre os trabalhadores brancos de classe média.

A popularidade do ex-presidente caiu consideravelmente desde então, e uma pesquisa da emissora CNN em junho a situava em 51%, contra os 66% que ostentava em 2014.

O índice é um reflexo da relação de amor e ódio que os americanos têm em geral com os Clinton: alguns admiram seu inegável talento político e lembram com nostalgia a década de 1990, enquanto outros os consideram elitistas e desonestos, capazes de tudo para tornar realidade suas ambições.

O único presidente democrata a ser reeleito na segunda metade do século 20 – e o único submetido a um julgamento político na história dos Estados Unidos – não deixou de influenciar a vida política do país desde que deixou a Casa Branca em 2001.

No entanto, sua presidência é mais recordada pelo escândalo sexual com a estagiária Monica Lewinsky do que pelo superávit orçamentário que alcançou ou pelos seus esforços para conseguir a paz no Oriente Médio e na Irlanda do Norte.

Veja abaixo: Bill Clinton é estrela desta noite na Convenção Democrata

Após deixar a Casa Branca, o ex-presidente criou a Fundação Clinton para enfrentar desafios globais desde a aids até o desenvolvimento econômico e a luta contra a discriminação racial.

As duas cirurgias cardiovasculares às quais precisou submeter-se, em 2004 e 2010, lhe impulsionaram a mudar sua dieta e a se transformar em vegano. Embora garanta gostar das verduras, frutas e legumes que come agora, no Dia de Ação de Graças come “um pouco de peru”, segundo confessou em entrevista em 2011.

William Jefferson Clinton chegou à presidência em 1993 como protagonista do autêntico “sonho americano”, após conseguir, com seu esforço, sair de um ambiente de pobreza e se transformar aos 32 anos no governador mais jovem dos Estados Unidos.

Nasceu no Estado de Arkansas, em um local chamado Hope, e nunca conheceu seu pai, que morreu antes que ele chegasse ao mundo. Cresceu com um padrasto alcoólatra e violento, mas conseguiu estudar nas prestigiadas universidades de Oxford e Georgetown.

Após fracassar, no início de seu mandato, em sua tentativa de realizar grandes mudanças sociais, como universalizar a saúde ou integrar os homossexuais nas forças armadas, se transformou em um “moderado” que preferia “reformar a mudar”.

Mais de duas décadas após ser batizado de “Comeback Kid” com seu surpreendente êxito nas primárias de New Hampshire, Clinton se transformou em um ator indispensável para garantir que sua mulher, a mesma que se manteve a seu lado apesar do escândalo Lewinsky, consiga sua própria conquista após anos em busca do poder.  / EFE

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