Campanha de extremos inéditos

Campanha de extremos inéditos

Bilionário e celebridade de TV sem experiência política enfrenta representante do establishment

Redação Internacional

06 de novembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
ENVIADA ESPECIAL / JACKSONVILLE, EUA

Bilionário que se tornou uma celebridade mundial como apresentador do reality show O Aprendiz e nunca ocupou um cargo público na vida, Donald Trump é o outsider por excelência na disputa pela presidência dos Estados Unidos, na qual enfrenta uma adversária que é uma das principais representantes do establishment político americano, Hillary Clinton.

Na mais inusitada eleição da história moderna americana, a primeira mulher com chance de chegar à Casa Branca disputa a preferência dos eleitores com o homem que dá notas a integrantes do sexo oposto com base no contorno de seus corpos e se gaba de poder fazer o que quiser com elas por ser famoso.

Hillary Clinton e Donald Trump se enfrentam no terceiro e último debate presidencial (Foto: AFP PHOTO / Mark RALSTON)

Hillary Clinton e Donald Trump se enfrentam no terceiro e último debate presidencial (Foto: AFP PHOTO / Mark RALSTON)

Trump impulsionou sua candidatura com uma visão apocalíptica e sombria, que apresenta os Estados Unidos como um país invadido por imigrantes, mergulhado na criminalidade e na pobreza, ameaçado por inimigos internos e externos e explorado e humilhado fora de suas fronteiras.

Suas respostas às aflições de seus seguidores podem ser traduzidas em slogans de campanha, como construir o muro, deportar imigrantes e barrar muçulmanos.

O desafio de Hillary é ser a candidata da continuidade no momento em que os eleitores americanos parecem desejar a mudança. A democrata se apresenta como a guardiã do legado de oito anos do presidente Barack Obama, que se empenha pela eleição da sucessora como nenhum outro ocupante da Casa Branca na história recente dos Estados Unidos.

A candidata afirma que a América já é grande, apresenta uma visão otimista do futuro e diz que Obama não recebe o crédito merecido por ter retirado os Estados Unidos da mais profunda recessão em sete décadas. Dados oficiais mostram que a economia americana está em seu melhor momento desde a crise de 2008. Em 2015, a renda cresceu no mais elevado ritmo desde 1967 e o desemprego caiu no mês passado a 4,9%, metade do registrado em 2009.

Mas a retórica de Trump encontra ressonância em comunidades que veem rápidas mudanças, com aumento do fluxo de imigrantes e o desaparecimento de empregos industriais. A maioria das ocupações foi engolida pela automação e tecnologia, mas o republicano foi bem-sucedido em responsabilizar o comércio internacional e a globalização pelo fenômeno.

Além de divergências políticas, os dois candidatos representaram visões conflitantes sobre a identidade dos Estados Unidos e de seu lugar no mundo. Estudo do Wall Street Journal mostrou que Trump é mais popular em cidades pequenas de maioria branca que viram o fluxo de imigrantes aumentar desde o início deste século.

Seu slogan “Tornar a América Grande de Novo” apela para uma nostalgia do período em que homens brancos conseguiam sustentar suas famílias trabalhando nas linhas de montagem de fábricas que não existem mais.

Hillary representa as grandes cidades que formam a base do Partido Democrata, nas quais os serviços e a tecnologia criaram novos empregos e onde a diversidade étnica e racial predomina. Ainda que a defesa da globalização tenha ficado na berlinda nessa eleição, ela tem uma visão mais internacionalista que a de Trump e, segundo as pesquisas, é vista pelos eleitores como a mais preparada para conduzir a política externa dos Estados Unidos.

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