Candidatura de Hillary coroa projeto pessoal e político de quatro décadas

Candidatura de Hillary coroa projeto pessoal e político de quatro décadas

União que teve início em Yale, nos anos 70, sofreu abalos consecutivos com denúncia de fraude financeira e exposição de escândalos de infidelidade conjugal, mas levou casal Clinton dos principais cargos do Estado de Arkansas à Casa Branca

Redação Internacional

07 Agosto 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

O projeto pessoal e político que há quatro décadas une Bill e Hillary Clinton enfrentou seu teste definitivo em 1998, quando o público americano acompanhou o debate sobre o relacionamento íntimo entre o então presidente e Monica Lewinsky, estagiária da Casa Branca 27 anos mais nova do que ele.

O caso levou à abertura de um processo de impeachment contra Clinton, acusado de mentir sob juramento sobre a aventura extraconjugal, mais uma da interminável série que marcou seu casamento desde o início. Desta vez, vieram à tona detalhes normalmente mantidos entre quatro paredes, como a revelação de que Clinton introduziu um charuto na vagina de Lewinsky e a estagiária costumava fazer sexo oral no presidente no Salão Oval da Casa Branca.

Candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton

Candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton (Foto: AP Photo/Carolyn Kaster)

Diante da maior humilhação pública de sua vida, Hillary repetiu o papel que havia desempenhado antes e salvou mais uma vez a carreira do marido. Mas o maior trauma também marcou o início da carreira política individual de Hillary, que culminou em sua vitória na disputa pela candidatura do Partido Democrata à presidência há quase duas semanas.

No mesmo dia em que o Senado analisava o impeachment, em 1999, ela participava de reunião para discutir sua incursão no mundo eleitoral. No ano seguinte, ela se tornaria a primeira mulher a se eleger senadora pelo Estado de Nova York. Depois de dedicar duas décadas e meia a um projeto político e pessoal fundado na trajetória pública de Clinton, Hillary começava a assumir o papel de protagonista.

“O episódio Lewinsky foi crítico não apenas para o casamento, mas para a evolução de Hillary como política. Ela estava casada com o mais habilidoso político de sua geração, mas não havia dúvida de que ele estava experimentando a maior queda livre presidencial do século 20, além da de Richard Nixon”, escreveu Carl Bernstein em sua biografia de Hillary, Woman in Charge (Mulher no Comando).

Segundo ele, antes do escândalo, ela não havia sentido a necessidade de afirmar sua “legitimidade” de maneira separada da “voz comum” que compartilhava com o marido. “Agora, com Bill tendo dilapidado muito do que era a presidência de ambos, ela tinha outro sentimento.”

A eleição para o Senado resgatou Hillary da humilhação e começou a transição dentro do casal Clinton. “Pela primeira vez, desde o dia de seu casamento, ela começou a eclipsar e a suceder na consciência pública – e no Partido Democrata – a presença dominante de seu marido”, escreveu Bernstein.

Quando se conheceram na Universidade de Yale, em 1971, Hillary e Bill já tinham anos de ativismo político inspirado nos ideais do movimento em defesa dos direitos civis e de justiça social. Ambos também compartilhavam a convicção de que eram predestinados a transformar a América. Aos 16 anos, Clinton já estava convencido de que teria uma carreira política. E, antes mesmo de eles se casarem, Hillary disse a um amigo que o futuro marido seria presidente do país.

Muitos que a conheciam acreditavam que ela era a destinada à liderança política. Em 1972, Betsey Wright, que se tornaria chefe de gabinete de Clinton em Arkansas disse a Hillary que um dia ela seria a primeira mulher a comandar os EUA. “Eu estava obcecada em relação a quão longe Hillary poderia ir, com seu misto de brilhantismo, ambição e autoconfiança”, disse Wright a Bernstein.

Mas Hillary abriu mão da promissora carreira como advogada e de suas próprias aspirações para embarcar em um projeto conjunto com Clinton, que os levou do Estado sulista do Arkansas à Casa Branca. Apesar de ele ser o que disputava eleições, o poder era compartilhado, com Hillary exercendo influência inédita nas decisões do marido como governador e presidente.

William Chafe, autor de Bill and Hillary: The Politics of The Personal (Bill e Hillary: A Política do Pessoal) diz que ambos têm traços de personalidades complementares, que foram cruciais para o sucesso político de Clinton. Segundo Chafe, Hillary deu disciplina, rigor e foco às aspirações do marido. Em troca, Clinton tornou a imagem dela mais humana e menos fria, algo que será relevante na atual eleição. “Bill era gentil, afável e avesso ao conflito. Hillary era dura, direta, disposta a lutar e a partir para a ofensiva.”

Veja abaixo: Os desafios de Hillary Clinton

O caráter quase pornográfico adotado pelos acusadores de Clinton e a prosperidade econômica da época colocaram o público ao lado do presidente e da primeira-dama. Quando o Senado rejeitou o impeachment, a popularidade de Clinton estava em 60%. Depois de defender o marido, a aprovação de Hillary subiu a 70%. Mas a autoconfiança e convicção de que são predestinados ao poder sofreram um golpe em 2008, quando um senador pouco conhecido chamado Barack Obama derrotou Hillary nas prévias democratas.

A percepção de arrogância foi um dos fatores responsáveis pela derrota. Mas Chafe também acredita que o fato de Hillary ser mulher contribuiu para a derrota. Na disputa de 2008, sua popularidade caiu abaixo de 50%. O fenômeno se repete hoje. Hillary tem a vantagem de enfrentar um rival com uma rejeição ainda maior que a sua, Donald Trump. “Quando ela está fazendo campanha por algo totalmente novo, há um componente antifeminista que leva as pessoas a olharem de maneira desfavorável para uma mulher que está sendo ousada.”