Cenário: Criminalização como tática do Partido Republicano

Cenário: Criminalização como tática do Partido Republicano

Ao afirmar repetidamente que não aceita a legitimidade de uma derrota nas urnas e que a eleição de Hillary criará crise constitucional, Trump oferece um aperitivo do que seria sua presidência

Redação Internacional

07 de novembro de 2016 | 05h00

Lúcia Guimarães*

Como anda o impeachment de Hillary Clinton? A horas de conhecermos o resultado da eleição presidencial, os planos para derrotar Hillary Clinton fora das urnas já estão desenhados. Donald Trump não está certo de que vai ganhar no voto? Ele tem sido encorajado pela queda da vantagem da adversária nas pesquisas, após o anúncio do diretor do FBI sobre a descoberta de novos e-mails da ex-secretária de Estado? Ah, o FBI, a agência federal que deve ser apartidária por lei, entrou na ciranda da criminalização. Um escândalo nascente coloca o escritório do FBI como central de vazamentos de supostas investigações sobre e-mails e também a Fundação Clinton, em benefício direto da campanha de Trump.

A criminalização como tática do Partido Republicano adquiriu organização profissional no começo do governo Bill Clinton – pré-estagiária – e continuou com o movimento nativista inconformado com a eleição do primeiro presidente negro dos EUA. Trump aderiu, fingindo que pagava por equipes de investigadores para provar que a certidão de nascimento de Barack Obama, no Estado do Havaí, era falsa. A Constituição dos Estados Unidos não permite que um cidadão nascido fora de território americano se eleja presidente.

Candidatos à presidência dos EUA, Donald Trump e Hillary Clinton, apertam as mãos em debate (Foto: EFE/JUSTIN LANE)

Candidatos à presidência dos EUA, Donald Trump e Hillary Clinton, apertam as mãos em debate (Foto: EFE/JUSTIN LANE)

“Nosso maior objetivo é fazer de Barack Obama o presidente de um mandato só.” A frase, proferida em 2010 pelo ainda hoje líder do Partido Republicano no Senado, Mitch McConnell, tornou-se clássica. Um líder do Legislativo comunicava ao público que o Congresso existe não para passar leis, mas para obstruir o Executivo, ainda que o preço seja paralisar o governo, mantendo o orçamento como refém, como ocorreu em 2013.

A Convenção Republicana, em julho, deu o tom da escalada da criminalização, exemplificada pelo discurso do governador trumpista de New Jersey, Chris Christie. O mesmo Christie que teve dois assessores condenados acusando-o de envolvimento no escândalo Bridgegate, um engarrafamento monstro de cinco dias criado para punir um adversário político. Na convenção, Christie incensou o público listando acusações fabricadas contra Hillary Clinton, concluídas com o refrão: culpada ou não culpada? “Lock her up!”, respondia a plateia, mandando Hillary direto para a cadeia no julgamento por multidão.

Ao afirmar repetidamente que não aceita a legitimidade de uma derrota nas urnas e que a eleição de Hillary criará crise constitucional, Trump oferece um aperitivo do que seria sua presidência. Os conservadores que votarão em Hillary por temer o renegado Trump não podem reclamar. A substituição da política adversária pela intimidação da perseguição criminal é o gênio republicano que eles deixaram escapar da lâmpada.

* É CORRESPONDENTE EM NOVA YORK

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