Cenário: Denúncia contra Trump pode ser caso de ‘Kompromat’, versão clássica de chantagem russa

Cenário: Denúncia contra Trump pode ser caso de ‘Kompromat’, versão clássica de chantagem russa

Versões não confirmadas da existência de vídeos de sexo gravados secretamente pelos russos para fazer pressão sobre o presidente eleito dos EUA, apesar de lembrarem um filme de espionagem, remetem a práticas habituais de todos os serviços secretos, elevadas a uma espécie de arte na Rússia

Redação Internacional

11 Janeiro 2017 | 21h34

As versões não confirmadas da existência de vídeos de sexo gravados secretamente pelos russos para fazer pressão sobre o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, apesar de lembrarem um filme de espionagem, tratam de práticas habituais de todos os serviços secretos, elevadas a uma espécie de arte na Rússia.

Vários meios de comunicação americanos noticiaram nesta quarta-feira, 11, a existência de um documento no qual estariam detalhadas informações comprometedoras sobre Donald Trump, que poderiam ser usadas para chantagear o magnata, que assume a presidência no dia 20.

MOS03D:RUSSIA-PROSECUTOR:MOSCOW,19APR00 - Russia's suspended chief prosecutor Yuri Skuratov reacts during the Federation Council session April 19. The upper house reversed more than a year of opposition on Wednesday and dismissed Skuratov, less than a month after Vladimir Putin's victory in an early presidential election. cvi/Photo by Sergei Karpukhin REUTERS

Em imagem de 2000, Yuri Skuratov é suspenso após escândalo. Foto: Sergei Karpukhin / Reuters

Entre elas, se fala da existência de um vídeo de sexo de Trump filmado clandestinamente pelos serviços secretos durante uma visita do magnata a Moscou, em 2013. Ainda que as informações não tenham sido confirmadas, os serviços de inteligência dos EUA as consideram críveis. Em contrapartida, o Kremlin rechaçou categoricamente as acusações.

Todo o episódio recorda o “kompromat” ou “relatório comprometedor” em russo, uma tática usada por todos os serviços secretos, em particular, a KGB na época soviética. Fazer cair em uma trama uma autoridade ocidental por graças aos encantos de uma bela russa já se tornou um “clichê”, um estereótipo, usado com muita frequência por romances e filmes de espionagem.

Após a queda da União Soviética, em meio ao caos dos anos 90, o “kompromat” converteu-se em um instrumento para levar a cabo campanhas para desacreditar políticos, empresários ou altos funcionáiros de governos estrangeiros.

“Todos os serviços secretos do mundo fazem isso, e não somos uma exceção”, admitiu o especialista Mikhail Liubimov, que dirigiu durante muito tempo as operações da KGB contra o Reino Unido e países escandinavos.

Fotografado com um parceiro do mesmo sexo quando a homossexualidade era proibida no Reino Unido, John Vassall, adido naval britânico em Moscou de 1954 a 1956, foi forçado a se tornar um dos mais célebres espiões da KGB na Grã-Bretanha.

Seu compatriota John Profumo, ministro da Guerra, caiu em 1963 em uma trama semelhante: teve relações íntimas com uma jovem de 19 anos, que também era amante de um funcionário do alto escalão soviético em Londres.

Em 1964, o embaixador francês, Maurice Dejean, foi a vítima da vez: agentes da KGB filmaram o homem casado com uma jovem atriz russa mantendo relações sexuais, fazendo com que ele fosse chamado de volta a Paris pelo chefe de Estado, general de Gaulle, pa ser destituído em seguida.

Mais recentemente, em 2009, um diplomata britânico na Rússia se demitiu após a publicação na internet de um vídeo no qual ele aparece com duas prostitutas. “A chantagem por meio de relacionamentos românticos é tão antiga quanto o próprio amor”, diz Lyubimov.

Mas as principais vítimas desta tática são, desde o fim da Guerra Fria, os próprios russos. A “guerra dos kompromat” se alastrou principalmente nos anos 90, quando os oligarcas russos lutavam entre si pelo controle de grandes empresas, e usavam seus impérios de mídia para lançar as piores acusações.

Em 1999, o procurador-geral Yuri Skuratov foi derrubado: a televisão divulgou um vídeo, cuja autenticidade jamais foi comprovada, no qual aparece com prostitutas, que teriam sido pagas por um condenado que já estava na prisão.

E em 2010, uma mulher conhecida por “Katia” seduziu vários opositores do Kremlin e filmou em segredo suas aventuras sexuais para então transmiti-las online.

Por sua vez, canais de televisão pró-Kremlin, tais como NTV ou LifeNews, não hesitaram em recolher por conta própria os “kompromat” contra adversários, usando escutas e câmeras escondidas.

No entanto, Mikhail Lyubimov adverte: “o ‘kompromat’ é uma espécie de bumerangue”. “Ninguém pode viver por muito tempo sob a ameaça do ‘kompromat’: em um momento, a vítima não aguenta mais o que pode levá-la a gradualmente se tornar um inimigo”, disse o ex-espião. “É uma ferramenta perigosa.” / AFP

Mais conteúdo sobre:

Donald TrumpEUA