Cenário: O que o mundo pode perder com as eleições dos EUA

Mesmo uma vitória de Hillary Clinton não ajudará a reverter o recuo mundial no campo da democracia e dos direitos humanos, a não ser que ela mude o rumo político adotado pelo atual governo

Redação Internacional

31 Agosto 2016 | 05h00

Fred Hiatt
W.POST 

A eleição presidencial americana pode ser crucial para o futuro da democracia, não só para os EUA. O impacto global de uma presidência sob o comando de Donald Trump seria desastroso. Mas mesmo uma vitória de Hillary Clinton não ajudará a reverter o recuo mundial no campo da democracia e dos direitos humanos, a não ser que ela mude o rumo político adotado pelo atual governo. Se você acha isso um pouco desalentador, analise o que ocorreu na última década.

Os poderes autoritários mais influentes do mundo – China, Rússia e Irã – tornaram-se mais rígidos internamente e mais agressivos além de suas fronteiras. Provaram que a internet, contrariamente às primeiras expectativas, pode se tornar uma arma de controle. E também que um país pode ingressar na economia global e, ao mesmo tempo, reprimir internamente a livre expressão, a liberdade de culto e o direito de reunião. Formaram uma vaga aliança de ditadores, trabalhando juntos para corroer e desacreditar os princípios de economia liberal e direitos individuais.

Retórica agressiva do republicano contra imigrantes e muçulmanos tem se reproduzido e amedrontado estudantes

Retórica agressiva do republicano contra imigrantes e muçulmanos tem se reproduzido e amedrontado estudantes

Por outro lado, nações que supostamente estariam inseridas no campo das democracias se inclinaram para o autoritarismo. Em algumas, como a Tailândia, a regressão se verificou por meio de golpes militares. Em outros, como Filipinas, Hungria, Turquia, Nicarágua – governos eleitos vêm anulando as proteções democráticas. E há ainda outras nações onde governantes autoritários prometeram abertura, mas seguiram o caminho contrário: Egito, Etiópia, Bahrein, Malásia, entre outros. Freedom House, organização sem fins lucrativos que monitora essas questões desde que foi fundada por Eleanor Roosevelt há 75 anos, possui dados deploráveis a respeito. Durante a década passada, a liberdade diminuiu em 105 países e avançou em apenas 61. E 2015 foi o pior ano, com 72 nações perdendo terreno. No mundo todo, em 2015 a liberdade de imprensa atingiu o ponto mais baixo em 12 anos.

Trump insuflaria o ímpeto dos ditadores. Se um indivíduo intolerante desqualificado consegue ascender ao topo da mais antiga democracia do mundo, como poderá a Freedom House, ou um terceiro, defender plausivelmente que outras nações adotem o sistema de governo dos EUA?

Trump também corroerá a democracia no exterior diante do seu desrespeito pelas normas democráticas dentro do próprio país. Ele tem defendido a tortura e outros atos ilegais, degradado a liberdade da imprensa, socavado um Judiciário livre, sua campanha é movida a insultos, não por meio do debate, e ele alertou seus críticos que sofrerão se for eleito. E se já não fosse o suficiente para estimular líderes autoritários com valores similares, Trump tem expressado admiração aberta pelos piores brutamontes do mundo, de Vladimir Putin aos criminosos da Praça Tiananmen.

Mesmo que ele perca a eleição, a reputação da democracia já sofreu um golpe: como um homem como Trump se tornou candidato de um partido importante? Mas talvez um outro cenário possa surgir também: mesmo em períodos de desordem econômica, diante de uma alternativa que muitos eleitores desgostavam, os americanos se mostraram muito sensatos e não permitiram que o pior ocorresse. Mas uma presidência Hillary só mudará o ímpeto global se adotar metas que Barack Obama consagrou como candidato, mas abandonou em grande parte como presidente.

A promoção da democracia desapareceu como objetivo quando Obama chegou à Casa Branca. Em negociações com China, Irã, Cuba e Coreia do Norte, os direitos humanos nunca foram prioridade. Ele se desculpou aos argentinos pelo fato de os EUA, durante a Guerra Fria, terem aceitado a “guerra suja” no seu país. Mas subestimou abusos similares ou piores em países aliados na guerra contra o terror, como Egito, Etiópia e Arábia Saudita. Ele esperava que estabelecer um bom exemplo internamente – pondo fim à tortura, fechando Guantánamo – repercutiria no exterior, mas os resultados foram decepcionantes.

Até que ponto o governo evoluiu desde a visão de Obama em 2007 pode ser avaliado num artigo do vice-presidente Joe Biden na Foreign Policy, no qual quase não toca em democracia ou direitos humanos. Biden estabelece as tarefas para o próximo governo para “um futuro mais próspero e pacífico”, mas não explicitamente relacionando-o com a liberdade: reforço das alianças na Ásia, enfrentamento da mudança climática e terrorismo, aprimorando os vínculos com as potências regionais. São todos assuntos importantes. Mas serão mais ilusórios se a democracia continua a desvanecer. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É EDITOR DE OPINIÃO DO ‘W. POST’

Mais conteúdo sobre:

EUADonald Trumpdemocracia