Cenário: pela primeira vez desde Reagan o gabinete de governo não inclui um latino

Cenário: pela primeira vez desde Reagan o gabinete de governo não inclui um latino

Termina assim a sequência de quase três décadas de secretários de governo, embaixadores e administradores de alto escalão de origem latina

Redação Internacional

20 Janeiro 2017 | 11h00

Ed O’Keefe
THE WASHINGTON POST

WASHINGTON – Nos seus últimos meses de governo, Ronald Reagan fez uma nomeação para seu gabinete que ficou na história. Lauro Cavazos foi nomeado secretário da Educação em setembro de 1988, tornando-se o primeiro latino a ocupar um posto chave no governo. Ele permaneceu na pasta até o início do governo de George H. W. Bush, tendo se demitido em meio a controvérsias sobre o uso impróprio de milhas aéreas.

FILE PHOTO: U.S. President-elect Donald Trump and his wife Melania take part in a Make America Great Again welcome concert at the Lincoln Memorial in Washington, U.S. January 19, 2017. REUTERS/Jonathan Ernst/File Photo

O presidente eleito Donald Trump e sua esposa Melania no Lincoln Memorial, em Washington (REUTERS/Jonathan Ernst)

Desde então, pelo menos um alto funcionário de origem latina tem integrado o gabinete da presidência na Casa Branca. Até este ano.

O presidente eleito Donald Trump deve nomear Sonny Perdue, ex-governador republicano da Geórgia, para dirigir o departamento de Agricultura, completando todo o quadro do seu secretariado. Com a escolha de Perdue, que já era esperada há semanas, verifica-se que o gabinete de governo de Trump não terá espaço para um democrata, incluirá três mulheres, um afro-americano, mas nenhum latino.

Termina assim a sequência de quase três décadas de secretários de governo, embaixadores e administradores de alto escalão de origem latina.

Depois de Cavazos veio Manuel Lujan Jr, o primeiro secretário do Interior de George H. W. Bush. Durante a presidência de Bill Clinton, Federico Peña serviu como secretário dos Transportes e mais tarde de Energia. Bill Richardson, depois de um período como embaixador americano nas Nações Unidas, sucedeu Peña no departamento de Energia. E Henry Cisneros foi secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano de Bill Clinton.

Quando George W. Bush assumiu o governo nomeou Mel Martinez para o departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano e Carlos Gutierrez para o Comércio. Barack Obama nomeou seis latinos: no seu primeiro mandato indicou como secretário do Interior Len Salazar e para o Trabalho Hilda Solís. No segundo período de governo – pressionado para recompensar uma comunidade de eleitores que cresce rapidamente e que votou majoritariamente nele, Obama escolheu para dirigir a Small Business Administration (Administração de Pequenas Empresas) Maria Contreras Sweet e Tom Perez para o Trabalho; Julián Castro foi nomeado para o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano e para a pasta da Educação nomeou John King, que é negro e porto-riquenho.

Indagado sobre a ausência de latinos em postos do alto escalão do governo Trump, o próximo secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, disse que Trump “buscou os melhores e os mais brilhantes para formar seu gabinete, mas não acho que as nomeações feitas refletem o total. Temos cinco mil cargos. Penso que veremos uma presença muito forte da comunidade hispânica em seu governo”.

Sean Spicer disse aos jornalistas para examinarem a diversidade dos funcionários de alto escalão na Casa Branca. Mas de novo, não há latinos. Pelo menos até agora.

Depois de uma campanha presidencial iniciada com ataques ferinos contra os imigrantes mexicanos, promessas de construção de um muro ao longo da fronteira com o México, e que incluiu também ofensas contra um juiz federal de nacionalidade mexicana e americana, além de ataques contra o único governador latino (um republicano) do país, poucas esperanças ou expectativas de que o governo Trump incluiria latinos entre seus principais assessores.

Durante reunião na semana passada no Capitólio, dezenas de líderes latinos fizeram uma tentativa derradeira para convencer a equipe de transição do presidente eleito a nomear uma figura latina para seu gabinete. E foram informados de que Trump havia se reunido com dois políticos, o ex-congressista do Texas, o democrata Henry Bonilla e o antigo vice-governador da Califórnia Abel Maldonado sobre a possibilidade de ocuparem a pasta da Agricultura, mas ambos descartaram o convite.

Mario Lopez, diretor do Hispanic Leadership Fund, grupo conservador, disse que Perdue “é uma escolha mais do que capaz para o posto”. E acrescentou em seu e-mail que: “mas o fato de não haver um membro de gabinete latino, pela primeira vez em anos, é realmente uma oportunidade perdida. Sabemos que há latinos altamente qualificados em todos os níveis com princípios e empenhados em servir bem o seu país”.

No passado outros grupos, incluindo o National Hispanic Leadership Agenda, pressionaram Obama para incluir em seu gabinete mais latinos, assumindo o mérito pela nomeação de Perez, Castro e outros em altas posições dentro do governo.

O grupo planejava uma campanha de pressão similar após a eleição em novembro, fazendo circular cópias de uma carta que pretendia enviar para a equipe de transição de Hillary Clinton, que esperavam fosse eleita.

Mas Donald Trump foi o vitorioso e as esperanças de mais latinos no gabinete de governo caíram por terra. / Tradução de Terezinha Martino