Cenário: Trump pode mesmo sair da disputa? E se sair?

Se ele concluir que vai perder de qualquer jeito, por que não pular do barco agora e deixar que outro segure o rojão? Afinal, isso é o que ele costuma fazer

Redação Internacional

05 Agosto 2016 | 05h00

Paul Waldman
The Washington Post

O establishment republicano tentou de tudo para que Donald Trump não fosse o candidato indicado do partido à presidência. Puseram US$ 100 milhões na campanha de Jeb Bush. Divulgaram anúncios informando que Trump não era um conservador autêntico. Escreveram contra ele em publicações conservadoras. Criaram um hashtag. Nada funcionou.

Chegamos a agosto. Trump é o indicado para disputar a presidência. E, após uma semana especialmente ruim até para ele, tem gente se perguntando: será possível que Trump possa realmente abandonar a disputa? E se fizer isso, o que acontecerá?
A ideia, claro, parece ridícula. Mas também soa ridículo um candidato presidencial embarcando num atrito de uma semana com a família de um soldado morto no Iraque. Então, pelo menos por enquanto, vamos levá-la a sério.

As falhas de Trump vão desde sua inabilidade em baixar a bola na briga com a família Khan a sua recusa em endossar Paul Ryan e John McCain; à sugestão aos americanos de que tirem seu dinheiro da bolsa de valores; a sua visão de que “a culpa é da vítima” em casos de assédio sexual; a sua afirmação de que a eleição está sendo manipulada contra ele.

E isso é só o que se vê em público. Há informações de que nos bastidores as coisas estão desmoronando. Vozes influentes do partido questionam se Trump pode permanecer no topo da chapa republicana sem trágicas consequências para a campanha e para o próprio Partido Republicano.

Mas ele poderia realmente deixar a disputa? O argumento contra tem alguns fatores que o reforçam. Primeiro, nunca ocorreu algo assim. Segundo, renunciar seria reconhecer a derrota, obviamente, algo que Trump considera intolerável. Terceiro, ele está apenas 6 pontos atrás de Hillary Clinton, sendo, portanto, perfeitamente possível que consiga estabilizar a corrida e esperar que algum acontecimento dramático (talvez uma invasão alienígena) mude a dinâmica da disputa e lhe possibilite vencer.

Já a argumentação de que ele poderia abandonar a disputa é menos persuasiva, mas nem tanto. Trump está enfrentando um nível de cobrança e crítica como nunca enfrentou antes, e isso tem seu preço. Se ele concluir que vai perder de qualquer jeito, por que não pular do barco agora e deixar que outro segure o rojão? Afinal, isso é o que ele costuma fazer.

Então, o que aconteceria se Trump saísse da disputa? Por sorte, os estatutos do Comitê Nacional Republicano já preveem tal cenário. Segundo o regulamento, se um indicado abandonar a corrida, os 168 membros do comitê nacional elegerão um substituto num processo mais ou menos parecido com o do colégio eleitoral, com membros de cada Estado votando juntos.

Não parece tão difícil em termos práticos, exceto pelo fato de que isso virtualmente garantiria que Hillary seja a próxima presidente. O caos reforçaria todos seus argumentos de que ela, sim, é equilibrada, a escolha sensata.

Os republicanos, por seu lado, teriam que encontrar alguém para preencher o vazio de Trump – e não pensem em Paul Ryan, que não é tão estúpido. Assim, Mike Pence poderia ser o substituto. E os partidários de Trump, depois de ouvirem por tanto tempo que estavam lutando contra um establishment corrupto, provavelmente se absteriam em grande número, depois que os 168 chefões partidários indicassem o novo nome.

Essa é a principal razão pela qual os republicanos, por mais que estejam fartos de Trump, não levarão as coisas tão longe: a alternativa é ainda pior. A menos que concluam que as coisas venham a se deteriorar a ponto de Trump arrastar consigo a maioria partidária na Câmara e no Senado, e nesse caso um substituto na cabeça de chapa não seria tão ruim, eles provavelmente continuarão tentando convencer Trump a jogar mais limpo e esperando que o estrago não vá muito além da votação.

É importante, ainda, assinalar que Trump não disse nada sugerindo que pense em abandonar a disputa. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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