Chance de amadurecer foi perdida

Chance de amadurecer foi perdida

Nunca temi tanto pelo país, por uma série de razões, mas principalmente pelas mensagens pueris, impulsivas, mesquinhas que o presidente eleito passou a adotar

Redação Internacional

19 Janeiro 2017 | 05h00

Thomas L. Friedman
THE NEW YORK TIMES

Quando Donald Trump foi eleito presidente, tive a convicção de que se tratava da coisa mais imprudente que os EUA poderiam fazer em toda a minha vida. Mas, como muitos americanos, fiquei esperando pelo melhor: ele amadurecerá ao longo do mandato. Ele se cercará de pessoas competentes. O país terá a oportunidade de experimentar um choque de novas ideias. Ele recuará de algumas de suas posições mais radicais.

Às vésperas da posse, no entanto, sinto que nunca temi tanto pelo país. Por uma série de razões, mas principalmente pelas mensagens pueris, impulsivas, mesquinhas que o presidente eleito passou a adotar.

Souvenir buttons are seen on sale at a stand near the White House in Washington, DC on January 18, 2017.  Washington DC is preparing the Inauguration of Donald Trump to take place January 20, 2017 at the US Capitol. / AFP PHOTO / TIMOTHY A. CLARY

Em Washington, suvenires sobre a posse de Trump (Foto: AFP/ Rimothy A. Clary) 

Elas indicam uma imaturidade, uma falta de respeito pelo cargo que em breve ocupará, uma pessoa que se deixa facilmente distrair por bugigangas que brilham e uma falta de decência fundamental que poderão comprometer o governo e dividir o país. Temo que estejamos à beira de pôr à prova a unidade e as instituições americana.

Como líder, você tem uma única chance de produzir uma segunda impressão. E é preocupante quão desastradamente Trump a pôs a perder. Em seu discurso de posse, voltará a nos instar a “fechar as feridas da divisão”. Mas, considerando o ímpeto de sua beligerância digital, tais palavras soarão ocas. Ele já as privou de força emocional com seus tuítes venenosos e a recusa a chamar pelo menos um democrata para o gabinete.

Trump não é o primeiro eleito a ser atacado em sua legitimidade. Na realidade, foi ele que comandou o ataque à legitimidade do presidente Obama. Mas, mais do que qualquer outro presidente desde Richard Nixon, Trump se mostrou incapaz de dar a outra face e de converter os céticos em aliados. Numa época que demanda uma liderança gigantesca, ele se tem comportado de maneira absolutamente pequena.

Tática. Que tal se, depois que Meryl Streep usou seu discurso na cerimônia dos Globos de Ouro para condenar sua cruel imitação de um repórter com deficiência física, Trump – em vez de chamá-la ridiculamente de “uma das atrizes mais superestimadas de Hollywood” – tivesse tuitado “Meryl Streep, a maior atriz de todos os tempos. Essas coisas acontecem em campanhas. Eu me arrependo. Mas, preste atenção, vou fazer com que você se orgulhe da minha presidência”?

E se após John Lewis, o parlamentar e herói do movimento dos direitos civis, ter questionado sua legitimidade, Trump não o tivesse escarnecido dizendo que Lewis era “só conversa, conversa, conversa”, mas tivesse tuitado “John Lewis, grande americano, vamos percorrer juntos o seu distrito e elaborar um projeto para melhorar a vida dessas pessoas”?

E se, no ano-novo, em vez de tuitar “feliz ano-novo a todos, inclusive aos meus inúmeros inimigos”, Trump tivesse dito “feliz ano-novo a cada americano – principalmente a Hillary Clinton e aos seus partidários que travaram uma campanha tão dura. Vamos fazer de 2017 um ano maravilhoso para cada americano. Com carinho”?

Suponhamos que Trump, em vez de chamar o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer de palhaço, tivesse dito “Chuck, você adora fazer acordos. Mande para cá os maiores especialistas em saúde pública e nós resolveremos esse problema juntos em 24 horas, para que todos os americanos tenham cuidados médicos melhores e mais baratos”.

É assim que fala a magnanimidade. Ela traria uma corrente de boa vontade que tornaria mais fácil a solução dos grandes problemas. E a Trump não custaria nada. Observei antes que um dos meus filmes preferidos é Invictus, que conta como Nelson Mandela, ao se tornar presidente da África do Sul, construiu a confiança da comunidade branca.

Pouco depois da posse, seus assessores de esportes quiseram mudar o nome e as cores da famosa equipe nacional de rugby – os Springboards, quase todos brancos – de maneira a refletir melhor a identidade negra africana. Mandela não concordou. Ele disse aos seus assessores negros que o segredo para fazer com que os brancos se sentissem à vontade na África do Sul, agora presidida por um negro, não era a eliminação de todos os seus mais preciosos símbolos.

“Precisamos surpreendê-los com o comedimento e a generosidade”, disse Mandela. Em sua maioria, os americanos são pessoas de bom coração que, na realidade, mais anseiam por voltar a se sentir unidas. Muitos dos que votaram contra Trump olhariam melhor para ele se ele os tivesse surpreendido com generosidade e graça. Ele fez exatamente o contrário. Que tristeza!

É COLUNISTA