Chave do arsenal está ao alcance, mas usá-la não é fácil

Redação Internacional

10 de novembro de 2016 | 05h00

Roberto Godoy

Na manhã fria do dia 20 de janeiro de 2017, o presidente Barack Obama e seu sucessor, Donald Trump farão uma reunião tão delicada quanto discreta – de acordo com uma tradição iniciada com John Kennedy há pouco menos de 55 anos.

Esse é o momento em que serão transmitidas de um governante para o outro as informações mais delicadas dos Estados Unidos. Um terceiro personagem, um militar, anônimo e invisível, conhecido na Casa Branca como Anjo do Apocalipse, explicará então como funciona a maleta dos códigos eletrônicos que permite ao presidente acionar o arsenal de armas nucleares. Pelos 1.460 dias e noites seguintes, a valise preta estará a não mais de 25 metros de distância. Será o meio de acesso mais rápido às 7.650 ogivas e bombas atômicas do estoque americano, 2.150 delas sempre prontas para uso em bases secretas, a bordo de submarinos e em aviões mantidos sob alerta permanente, prontos para partir.

Já não existe o telefone vermelho, a linha direta e segura que durante a Guerra Fria permitiu aos ocupantes do Salão Oval, em Washington, e da Sala Nicolau, em Moscou, falarem diretamente em situações de crise. As comunicações seguras podem ser feitas por dispositivos conectados por meio dos satélites de grande capacidade da rede de inteligência. E, sim, Trump vai poder lançar um ataque atômico. Mas só depois que mísseis inimigos tiverem sido detectados voando em direção aos EUA. E não existe um botão de disparo. A ordem é um sinal eletrônico – por quase três décadas uma singela sequência de oito zeros – 00 00 00 00.

O número só teria sido alterado e passou a ser variável a partir das modificações no sistema de defesa estratégica dos EUA implantadas por ordem do ex-presidente George W. Bush, depois do atentado de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas. O presidente americano pode muito como comandante supremo das Forças Armadas – as mais poderosas da história da civilização -, mas não pode tudo. Tomar a iniciativa de um bombardeio com armas nucleares é uma decisão colegiada que envolve o Estado Maior Conjunto, os secretários de Estado, de Defesa e de Justiça, os chefes do Congresso, além do assessor especial de Segurança, dos diretores das agências de informações e, claro, de especialistas de diversas áreas.

Na Casa Branca, o presidente comanda de uma sala blindada cinco andares abaixo do solo os procedimentos especiais como a operação da equipe que matou o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, no Paquistão – e eventualmente também uma ação nuclear. O Pentágono mantém armas estratégicas preposicionadas oficialmente em cinco países: Alemanha, Bélgica, Itália, Turquia e Holanda.

Sem comprovação, haveria reservas também na Grã-Bretanha e em navios deslocados para o Oriente Médio. No mundo, sob o mar, silenciosos, navegam os submarinos de ataque, 14 gigantes da classe Ohio, carregados com 24 mísseis Trident de ogivas múltiplas, destinados a atingir alvos independentes com alcance na faixa de 10 mil km.

Uma operação militar convencional, sem envolver os recursos atômicos, é mais fácil. Trump tem autonomia para mobilizar tropas equipadas para combate e só comunicar ao Congresso depois do movimento, sob a justificativa de haver ameaça real e imediata. Um ataque em larga escala precisa do aval do Legislativo – desde que haja uma declaração formal de guerra. A envergadura não é pequena. As tropas somam 1,4 milhão de homens e mulheres e um imenso conjunto de equipamentos.

Tudo o que sabemos sobre:

Donald TrumpBarack Obama

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.