Com ofensiva, Trump tenta assegurar base

Republicano revidou declarações de presidente da Câmara, de que não o apoiará, e centrou novos ataques e ameaças contra campanha de Hillary

Redação Internacional

12 de outubro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington

Donald Trump usou ontem o Twitter para oficializar seu divórcio da liderança do Partido Republicano, depois que vários representantes da legenda desertaram de sua candidatura à presidência. “É tão bom que as algemas tenham sido retiradas de mim. Agora, posso lutar pela América do jeito que quero”, escreveu.

Sem precisar manter as aparências de um casamento fracassado, Trump disparou ataques contra o presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, que na segunda-feira disse a parlamentares republicanos que não defenderá nem fará campanha em favor do bilionário. No Twitter, o candidato se referiu a Ryan como um líder “fraco” que teve uma atitude “desleal”.

Republican U.S. presidential nominee Donald Trump pauses as he speaks at a campaign rally in Ambridge, Pennsylvania, October 10, 2016. REUTERS/Mike Segar

Donald Trump em Ambridge, Pensilvânia. Foto: Mike Segar/Reuters

Mas Trump centrou sua artilharia pesada no casal Clinton, em uma tentativa de superar a crise na qual sua campanha submergiu na sexta-feira, depois da revelação do vídeo no qual fala de mulheres de maneira degradante. “Se eles divulgarem mais gravações (de mim) falando coisas impróprias, continuarei a falar sobre Bill e Hillary Clinton fazendo coisas impróprias”, ameaçou o candidato.

No dia anterior, acuado pelo escândalo, ele partiu para o ataque contra a adversária no segundo debate da campanha presidencial. Trump levou ao evento mulheres que acusaram o ex-presidente de abuso sexual, comparou Hillary ao “demônio” e ameaçou prendê-la caso ele chegue à presidência.

A ofensiva parece ter inflamado os seguidores fiéis do candidato e estancado sua queda livre nas pesquisas. Levantamento do Wall Street Journal divulgado ontem mostrou que Trump subiu dois pontos depois do debate, para 37%, enquanto Hillary manteve os 46% que tinha na véspera do embate, em um cenário que incluiu candidatos de dois outros partidos. No enfrentamento direto com Trump, Hillary registrou 50% de intenções de voto, 10 pontos à frente. Antes do debate, a diferença era de 14 pontos.

“O que Trump tentou fazer no debate foi garantir o apoio da base republicana, que odeia e não confia em Hillary Clinton. O problema é que isso não vai garantir sua vitória na eleição”, disse David Karol, professor de Ciência Política da Universidade de Maryland e coautor do livro The Party Decides, no qual analisa o processo de escolha de candidatos à presidência.

Com sua estratégia sem algemas, o candidato pode inflamar seu grupo de seguidores, formado majoritariamente por homens brancos sem educação superior. Mas, para vencer, ele precisa ir além desse universo.

Na opinião do cientista político George Hawley, da Universidade do Alabama, o objetivo do bilionário é criar um lamaçal que ofusque as diferenças entre ele e a adversária no terreno moral. “Com isso, talvez Trump possa dizer a eleitores moderados que ele pode ser ruim, mas não é pior do que Hillary Clinton.”

“Ao inflamar a base partidária, Trump também tenta impedir novas deserções de parlamentares republicanos que buscam a reeleição”, avaliou Karol. “Esses candidatos estão em uma situação muito difícil, porque não podem ganhar sem os eleitores de Trump, mas também não podem ganhar só com os eleitores de Trump.”