Ataque a policiais domina agenda de reunião republicana

Assassinatos em Dallas e Louisiana reforçam lema da campanha de Trump, que se apresenta como o candidato de ‘lei e da ordem’

Redação Internacional

18 Julho 2016 | 16h31

Cláudia Trevisan,
ENVIADA ESPECIAL / CLEVELAND, EUA

O assassinato de policiais em Dallas e Baton Rouge marcou a abertura da convenção do Partido Republicano nesta segunda-feira, 18, que deve reforçar o novo lema da campanha de Donald Trump à presidência, que o apresenta como o candidato da “lei e da ordem”.

O evento de quatro dias começou com um minuto de silêncio em homenagem aos oito policiais assassinados em um espaço de dez dias. Em seguida, o rabino Ari Wolf fez uma oração na qual enfatizou o sentimento de insegurança provocado pelos tiroteios. “Vivemos em um período perigoso e arriscado. Hoje, nosso país amado está sob ataque. Nossos valores familiares e morais e até mesmo nossa democracia estão ameaçados”, declarou o rabino, que é capelão do Departamento de Polícia de Cleveland.

O tom das declarações ecoa a retórica de Trump, que apresenta os EUA como um país à beira do abismo e propõe resgatar os dias de glória supostamente perdidos com o slogan “Tornar a América Grande de Novo”.

O bilionário que nunca ocupou um cargo público deve completar nesta semana sua conquista do Partido Republicano, apesar da oposição da ala tradicional da legenda. Os integrantes do grupo Nunca Trump foram derrotados hoje em sua tentativa de mudar as regras da convenção para permitir que os delegados votassem segundo sua consciência e não nos termos do resultado das primárias que deram vitória ao candidato.

“Os delegados vão se unir ao redor de Trump porque ele teve o maior número de votos nas primárias”, disse Christian Goedde, integrante da delegação do Texas. Outra delegada do Estado, Gale Stanart, votou no senador Ted Cruz nas primárias, mas decidiu apoiar o bilionário de Nova York na convenção. “A prioridade agora é salvar a América”, afirmou.

Cada um dos quatro dias do evento terá um tema que será uma variação do slogan “Tornar a América Grande de Novo” – o de hoje foi “Tornar a América Segura de Novo”. Entre os oradores previstos estavam militares, veteranos de guerra, oficiais ligados ao controle de imigração, o ex-governador do Texas, Rick Perry e o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani.

A mulher de Trump, a ex-modelo Melania, é a oradora que representa a família na primeira noite a convenção. Três filhos do bilionário falarão entre amanhã e quinta-feira, quando o bilionário deverá realizar seu discurso de aceitação da nomeação republicana.

A profusão de pessoas com sobrenome Trump contrastou com a ausência de alguns dos principais nomes da legenda. John Kasich, governador do Estado onde a convenção é realizada, não pretende aparecer no estádio onde os delegados se reúnem. Os dois últimos candidatos republicanos à presidência, Mitt Romney e John McCain, também estarão ausentes. Os únicos ex-presidentes republicanos vivos – George Bush e George W. Bush – manterão a distância de Cleveland.

Trump deixou claro que pretende usar os recentes ataques dentro e fora dos Estados Unidos para impulsionar sua candidatura. Analistas veem um paralelo entre 2016 e 1968, quando o republicano Richard Nixon venceu a disputa pela Casa Branca com um discurso de defesa da “lei e da ordem”, em um momento de turbulência e tensão racial nos EUA.

Trechos dos discursos que seriam proferidos na noite de hoje mostraram a ênfase que os oradores dariam à questão do combate ao terrorismo, controle das fronteiras e aplicação da lei.

“É o momento de lutarmos pela segurança de nossos filhos, nossos netos e de nós mesmos”, disse a senadora de Iowa Joni Earnest, de acordo com trechos do discurso distribuído com antecedência. Veterinária, ela foi eleita em 2014 com a promessa de usar sua experiência na castração de porcos para fazer os políticos de Washington “gritarem”.

Mensagens. Filha de uma colombiana e um palestino, a muçulmana Rose Hamid caminhava hoje pelo centro de Cleveland distribuindo canetas decoradas com uma rosa vermelha, na esperança de apresentar uma imagem positiva de sua religião no momento em que a islamofobia cresce no Ocidente. A poucos metros, David Grisham segurava um cartaz com os dizeres “cada muçulmano verdadeiro é um jihadista”.

Como milhares de pessoas, ambos viajaram à cidade com o objetivo de conquistar um pequeno espaço no grande espetáculo que acompanha as convenções partidárias americanas. As ruas ao redor o estádio onde os republicanos se reúnem se transformaram em passarelas de protestos a favor e contra a candidatura de Trump e um caleidoscópio de ações coletivas e individuais.

Na manhã de hoje, 130 mulheres posaram nuas segurando espelhos para uma instalação concebida pelo fotógrafo Spencer Tunick com o título Tudo o que ela diz significa alguma coisa. A obra foi organizada em uma propriedade privada, onde a polícia não podia intervir. “Ele é um perdedor”, disse Tunick à Agência France Presse, referindo-se a Trump.

Manifestações do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) se alternavam com protestos a favor de causas conservadoras. Usando uma camiseta com os dizeres “Hillary Clinton para a prisão”, o marine Shawn Witte carregava uma bandeira dos EUA e repetia teorias conspiratórias propagadas por sites extremistas de direita. Entre elas, a de que a candidata democrata vendeu armas a terroristas e traficantes de drogas durante sua gestão no Departamento de Estado.

Os amigos Daniel Malafronte e Darrin Maconi optaram por uma abordagem bipartidária com interesses comerciais e decidiram vender sucrilhos em duas versões: “Trump Flakes” e “Hillary Crunch”. Cada caixa custa US$ 40 e os recursos obtidos com sua venda serão usados no pagamento da faculdade de Malafronte.

A poucos metros, o comediante Eric Yesbick vendia camisinhas em três embalagens diferentes –Trump, Hillary Clinton e Bernie Sanders –, cada uma com trocadilhos que faziam referências à personalidade dos candidatos. Preço: uma por US$ 5 e três por US$ 10.