Como Donald Trump conseguiu evitar a convocação para ir à Guerra do Vietnã

Como Donald Trump conseguiu evitar a convocação para ir à Guerra do Vietnã

Problema médico nos calcanhares o isentou da tarefa de defender os Estados Unidos no sudeste asiático

Redação Internacional

02 Agosto 2016 | 10h06

Em 1968, com 22 anos, o jovem Donald J. Trump parecia a imagem da saúde. Tinha 1,88m de altura, porte atlético, jogava futebol americano, tênis e aprendia golfe. Seu histórico médico era invejável, com a exceção de uma apendicite quanto tinha 10 anos.

Mas depois de se formar na faculdade em 1968, tornando-se uma pessoa possível a ser mandada ao Vietnã, ele recebeu um diagnóstico que mudou seu destino: foram detectados osteófitos (conhecidos popularmente como bico de papagaio) em seus calcanhares. A notícia o isentou de cumprir o serviço militar enquanto os Estados Unidos enviavam tropas para lutar no sudeste da Ásia.

Candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump

Candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump (Foto: REUTERS/Carlo Allegri)

Essa foi apenas uma das cinco ausências que Trump teve durante a Guerra do Vietnã. As outras foram por motivos educacionais. Sua experiência nessa época está iniciando um novo debate depois que os pais muçulmanos de um soldado americano morto no Iraque questionaram publicamente se Trump já se havia se sacrificado por seu país.

Em um discurso emocionado na Convenção Nacional Democrata na semana passada, o pai do soldado, Khizr Khan, criticou diretamente o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos e disse: “Você não sacrificou nada nem ninguém”.

As declarações públicas de Trump sobre sua experiência algumas vezes entram em conflito com os arquivos do país, e ele geralmente é vago sobre o assunto.

Em uma entrevista ao jornal The New York Times em julho, o candidato disse que seus osteófitos eram “temporários” – uma doença “secundária” que não havia deixado um impacto significante sobre ele. O republicano havia se consultado com um médico que providenciou uma carta oficial garantindo a ele isenção médica. Trump não conseguiu se lembrar do nome do médico. “Tive um médico que me deu uma carta – uma carta muito forte sobre a situação dos meus calcanhares”, disse ele em entrevista.

Quando a publicação pediu uma cópia do documento, Trump disse que teria que procurar por ela. Uma porta-voz não respondeu aos posteriores pedidos.

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Os documentos da época que ainda permanecem no Arquivo Nacional – muitos deles foram descartados – não especificam quais as condições médicas que isentaram Trump do serviço militar. O empresário descreveu sua condição como esporões no calcanhar – que são protuberâncias causadas pelo acúmulo de cálcio sobre o osso do calcanhar. O tratamento pode ser feito com alongamento, órteses ou mesmo cirurgia. Trump disse que não lembra exatamente quando parou de se preocupar com isso, mas garantiu que não passou por cirurgia alguma. “Depois de um tempo, curou-se”, disse ele.

Mesmo que sua opinião sobre o Vietnã seja amplamente compartilhada hoje, tanto seu registro quanto suas declarações a respeito da guerra se provaram preocupantes para Trump durante sua campanha.

Após seu aniversário de 18 anos, o bilionário se registrou para ir à guerra, como todo homem da idade dele fez. No mês seguinte, ele recebeu um deferimento educacional. O primeiro foi em Fordham, no Bronx, e depois na Wharton School, na Filadélfia.

Enquanto a formatura de Trump se aproximava, a luta no Vietnã se intensificava. No dia em que se formou, 40 americanos foram mortos e o Pentágono se preparava para enviar mais tropas ao conflito. Com a graduação chegando ao fim, não teria muito a se fazer para impedir que alguém na situação de Trump fosse convocado, a não ser pelo diagnóstico de seus osteófitos.

O empresário recebeu a classificação de 1-Y no exame médico, que corresponde a uma isenção temporária. Mas na prática, apenas uma emergência nacional ou uma declaração oficial de guerra, a qual os Estados Unidos evitara durante o conflito no Vietnã, teriam feito com que ele fosse considerado apto para o serviço. Nenhuma dessas situações aconteceu e Trump permaneceu com o status de 1-Y até 1972, quando foi mudado para 4-F, desqualificando-o permanentemente.

Em entrevistas, Trump afirma que, na época, acreditou que pudesse ser submetido a outro exame físico para verificar a condição de seus calcanhares.

Desde que Khan dirigiu seu discurso a Trump na convenção democrata, Trump tem sido pressionado com relação aos sacrifícios que fez por seu país. “Acredito que fiz muitos sacrifícios”, disse o bilionário em uma entrevista recente à emissora ABC. “Eu trabalho muito. Criei milhares e milhares de empregos e grandes estruturas. Tive um tremendo sucesso. Acho que fiz muito.”

Khizr M. Khan, pai do capitão Humayun S.M. Khan - soldado muçulmano morto no Iraque, discursa na convenção democrata ao lado de sua mulher

Khizr M. Khan, pai do capitão Humayun S.M. Khan – soldado muçulmano morto no Iraque, discursa na convenção democrata ao lado de sua mulher (Foto: Alex Wong/AFP)