Como ele quebrou velhas regras para chegar à Casa Branca

Como ele quebrou velhas regras para chegar à Casa Branca

Trump ridicularizou as ideologias e pregou, em linguagem grosseira e com ego desavergonhado, um pragmatismo duro e direto

Redação Internacional

10 de novembro de 2016 | 05h00

Marc Fisher
The Washington Post 

Donald Trump disputou contra si mesmo e venceu. O bilionário que durante décadas gabou-se de seu estilo de vida de playboy, foi duro com incorporadores e vendedores, contratou imigrantes ilegais, deixou de frequentar a Igreja, adotou causas liberais e teve Hillary e Bill Clinton como amigos e aliados, acabou se tornando uma das mais impudentes figuras centrais da história americana, vendendo-se para os eleitores como um herói populista que compreendia suas frustrações e lhes garantia um mundo de vitórias.

Trump empreendeu o caminho que disse que faria há mais de 30 anos. Ignorou as regras da moderna política e falou para os americanos numa linguagem simples, até grosseira, sem medir as palavras e usando todos os recursos proporcionados por consultores, grupos de foco e TV. Ridicularizou as ideologias, pregando um pragmatismo duro e direto alimentado por um ego desenfreado e desavergonhado.

President-elect Donald Trump on stage with his family to celebrate winning the election, around 3 a.m. in New York, Nov. 9, 2016. Trump said that he had received a phone call of congratulations from Hillary Clinton. (Damon Winter/The New York Times)

Foto: Damon Winter/The New York Times

Disse aos eleitores o que eles queriam ouvir: que uma sociedade que vem mudando e se dividindo conseguirá voltar a ter o senso de comunidade e propósito do qual está nostálgica, os empregos perdidos serão recuperados e uma economia como existia antes da globalização poderá ser restaurada.

Trump disputou contra as elites e venceu. Não importa que tenha nascido rico, que tenha ostentado sua riqueza e vivido como rei. Ele definiu a eleição como uma revolução do povo contra todas as instituições que abandonou e desprezou esse povo – políticos e partidos, o establishment de Washington, a mídia, Hollywood, os acadêmicos, todos os setores ricos e com educação superior da sociedade que progrediram durante um período em que as famílias da classe média perderam o rumo. Ele jurou virar Washington de cabeça para baixo e “drenar o pântano”. As multidões gostaram tanto da frase que a gritavam antes mesmo de ele abrir a boca para discursar.

Trump disputou contra velhas regras que estabelecem como as pessoas devem fazer política – e também, nesse caso, foi vitorioso. Especialistas em política, de ambos os partidos, o ridicularizaram quando ele não seguiu o programa e criou uma campanha moderna, movida a dados, com base em comerciais de TV, grupos de foco e microanálises de comportamento do eleitor. Ele confiou em seu instinto, acreditando que sua mensagem e estilo seriam mais afinados com a maneira pela qual os americanos hoje absorvem as notícias.

Mais que qualquer outra figura política da era digital, Trump viu como a mídia social separou a nação em campos culturais e ideológicos, cada um com as próprias atitudes e discursos. Viu como o Facebook e o Twitter apagaram a linha que separa o público do privado. E se beneficiou dessa mudança, transformando-se numa válvula de escape humana que fustigou o país com a torrente de frustração e ira que muitos guardavam para si.

Trump venceu porque entendeu que sua celebridade o protegeria contra os padrões mais rígidos aos quais os políticos normalmente devem se ater (uma gafe e você está perdido). “Acho que ele tem um ego tão grande que não poderia falhar”, disse Mary Vesley, de 74 anos, eleitora de Trump em Mechanicsville, Virgínia.

Trump lutou contra acusações de que assediou mulheres e contra relatos persistentes sobre seu comportamento grosseiro e seus insultos asquerosos, e também venceu. Um dia depois do Washington Post ter divulgado um vídeo mostrando Trump explicando para o apresentador Billy Bush como agarrava as mulheres, um eleitor seu em Syracuse, Estado de Nova York, Shannon Barnes, afirmou que o vídeo só tinha aumentado sua crença de que ele deveria ser presidente.

As grandes famílias do setor imobiliário de Nova York sempre olharam com desprezo para Trump, considerado um “novo-rico” atrevido e desagradável num setor que se orgulhava de realizar as coisas tranquila e diplomaticamente. Os bancos o tratavam como um adolescente descontrolado que precisava ser refreado e receber uma lição. Os políticos se divertiam com ele, mas depois correram para ficar a seu lado e desfrutar um pouco de sua fama.

Trump os derrotou, repetidas vezes, recorrendo à população, a seus clientes, a seus admiradores. Tendo sucesso na construção de arranha-céus e cassinos, ou enfrentando seis falências de empresas, ele sempre retornava ao show business e à mídia para se defender frente aos americanos comuns.

De quando começou a aparecer nas séries de TV e em WrestleMania, às 14 temporadas em que foi o CEO na série da NBC O Aprendiz, Trump cultivou entre a classe média americana uma imagem de bilionário franco e direto, com dinheiro e confiança para enfrentar qualquer um. Tudo que tinha a fazer, afirmou, era se conectar diretamente com os sofrimentos, os temores e as frustrações de uma nação massacrada pela globalização, pelo terrorismo, pela rápida mudança demográfica e por uma revolução tecnológica.

A condução vacilante por Hillary do escândalo sobre o uso de um servidor privado de e-mails foi a grande oportunidade para Trump desfechar seus ataques. Quando o diretor do FBI anunciou que Hillary não havia cometido nenhum crime, mas havia sido bastante descuidada e depois, no mês passado, anunciou ter reaberto a investigação do caso, Trump intensificou a ofensiva.

O coordenador de campanha de Trump, Stephen Bannon, que veio do site de extrema direita Breitbart, procurou intensificar a mensagem anti-establishment e abrandar sua retórica contra as mulheres, visando a atrair as suburbanas. Bannon considerava Trump o equivalente americano da votação do Brexit, na Grã-Bretanha – uma outra revolução popular inesperada contra as elites. Para Bannon, a vitória de Trump não causaria o abalo que a mídia e os políticos pensavam, mas seria parte de uma revolta mundial contra a globalização, a hegemonia da tecnologia e a arrogância das pessoas graduadas em escola superior.

Bannon trouxe Nigel Farage, defensor do Brexit, para um comício republicano e disse repetidamente a Trump que sua candidatura fazia parte de um movimento mundial contra as elites das finanças, da mídia e da política.

Não se sabe se Bannon e outros que participaram da campanha acompanharão Trump na Casa Branca. O círculo mais próximo do presidente eleito consiste de pessoas que estão com ele há décadas, sendo poucas as que vieram se juntar a ele no decorrer dos anos. O que fará agora, nem ele sabe. Indagado se passou muito tempo se preparando para ser presidente, Trump admitiu que seu foco estava somente na campanha. “Estou à caça. Quando consigo algo que realmente quero, às vezes perco o interesse.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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