Artigo: Como os americanos se iludem sobre a Rússia

Putin aumentou o padrão de vida dos russos quando o petróleo estava em alta; se não consegue levantar seu país, tenta rebaixar os EUA

Redação Internacional

12 Janeiro 2017 | 05h00

William J. Burns
THE NEW YORK TIMES

Nestes 25 anos após o fim da Guerra Fria, ressentimentos profundos, interpretações errôneas e decepções no geral definiram as relações entre americanos e russos. Os EUA oscilam entre sonhar com uma parceria estável com Moscou e descartar a Rússia como uma potência regional arisca, em processo terminal. A Rússia sonha com uma parceria estratégica com os EUA e um desejo mais profundo de alterar a ordem internacional vigente, em que os EUA, potência dominante, relegam o país a um papel de subordinação.

A relação americana com a Rússia continuará competitiva e, com frequência, de antagonismo num futuro próximo. E no centro disso está uma desconexão fundamental em termos de perspectiva e quanto ao papel de cada um dos dois países no mundo.

PIL02 VILNIUS (LITUANIA) 21/11/2016.- Una mujer pasa por delante de un grafiti que representa al presidente electo estadounidense, Donald Trump (d), y al presidente ruso, Vladímir Putin, mientras comparten el humo de un cigarro, en la pared de un restaurante en Vilnius, Lituania, el 20 de noviembre de 2016. EFE/Roman Pilipey

Desde a campanha, Trump defende um melhor relacionamento com a Rússia de Vladimir Putin (Foto: EFE/Roman Pilipey)

É tentador achar que a relação pessoal pode acabar com essa desconexão e a arte do acordo pode levar a uma grande negociação. É uma hipótese estúpida em termos de política racional. E é especialmente irracional achar que a interferência preocupante da Rússia na eleição americana não deva ser tão valorizada, embora inconveniente.

A intromissão agressiva de Putin na eleição, como ocorre com sua política externa mais geral, é inspirada por pelo menos dois fatores: o primeiro é a convicção de que o caminho mais seguro para a Rússia voltar a ser uma grande potência será à custa de uma ordem liderada pelos americanos. Ele quer a Rússia sem as restrições impostas por valores e instituições ocidentais, livre para buscar uma esfera de influência.

O segundo está estreitamente ligado ao primeiro. A legitimidade do sistema de controle interno repressivo adotado por Putin depende da existência de ameaças externas. Desfrutando dos altos preços do petróleo, ele reforçou seu contrato social com a população russa com um aumento do padrão de vida dos cidadãos.

Isso ficou claro na Moscou que conheci como embaixador americano há uma década, repleta de promessas de uma classe média crescente e o consumo de uma elite convencida de que qualquer coisa que valha a pena fazer deve ser feita ao extremo. Mas Putin perdeu essa cartada com a queda dos preços do petróleo, as sanções ocidentais e uma economia unidimensional em que uma reforma de fato foi relegada diante do imperativo do controle político e da corrupção que o lubrifica.

Putin conhece a fragilidade relativa da Rússia, mas regularmente demonstra que poderes decadentes podem ser tão perturbadores quanto poderes emergentes. E, assim, vê um cenário repleto de alvos à sua volta.

Se ele não consegue levantar a Rússia, então tenta rebaixar os EUA, com sua agilidade tática característica e sua disposição de jogar duro e assumir riscos. Se não pode ter um governo obediente em Kiev, arrebata a Crimeia e tenta arquitetar a próxima conquista, a Ucrânia. Se não pode se dar ao risco de uma sublevação do regime na Síria, exibe o poderio militar russo, debilita o Ocidente e preserva Bashar Assad sobre os escombros de Alepo.

Se não consegue intimidar indiretamente a União Europeia, acelera sua desintegração apoiando nacionalistas contrários a ela e explorando a onda migratória engendrada em parte por sua própria brutalidade. Onde pode, Putin expõe a aparente hipocrisia e inutilidade das democracias ocidentais, tornando indistinta a linha que separa o fato da ficção.

Então, o que fazer? A Rússia ainda é um país grande demais, orgulhoso e influente para ser ignorado e é a única potência nuclear comparável aos EUA. Continua uma voz importante na resolução de problemas que vão do Ártico ao Irã e à Coreia do Norte. Os EUA precisam se concentrar no que é crucial antes de testar o desejável.

O primeiro passo é apoiar e, se necessário, ampliar as medidas adotadas pelo governo Obama em resposta aos atos de pirataria cibernética russa. A Rússia desafiou a integridade do sistema democrático americano e as eleições na Europa em 2017 são o seu próximo campo de batalha.

Um segundo passo é assegurar aos aliados europeus o compromisso absoluto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os políticos americanos falam um ao outro para “lembrar da sua base” e é isso que deve orientar a política com relação ao Kremlin. Um terceiro passo é concentrar atenção na Ucrânia, país cujo destino será crítico para o futuro da Europa e da Rússia na próxima geração. Não se trata da Otan ou de uma adesão à União Europeia, mas de auxiliar os líderes ucranianos a criarem um sistema político eficiente que Moscou procura subverter.

Finalmente, os EUA precisam ter cuidado com noções superficialmente atraentes, como uma guerra comum contra o extremismo islâmico ou um esforço comum para “conter” a China. O papel sangrento da Rússia na Síria torna a ameaça terrorista muito pior e, apesar das preocupações de longo prazo sobre uma China emergente, Putin não tem intenção de sacrificar um relacionamento com Pequim.

Firmeza, vigilância e apreender os limites do possível são a melhor maneira para lidar com a combinação explosiva de ressentimento e insegurança que Putin incorpora. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-VICE-SECRETÁRIO DE ESTADO E EX-EMBAIXADOR DOS EUA NA RÚSSIA, DE 2005 A 2008

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