Como Trump chegou com chances, apesar do que diz e faz

Como Trump chegou com chances, apesar do que diz e faz

Líderes republicanos passaram as duas últimas décadas pulverizando as normas democráticas

Redação Internacional

05 de novembro de 2016 | 05h00

Paul Krugman
The New York Times
Até onde se pode dizer, Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados – e líder do que restou do establishment republicano – não é racista nem autoritário. Mas ele está fazendo o que pode para tornar um racista autoritário o homem mais poderoso do mundo. Por quê? Porque assim poderá privatizar o Medicare e reduzir os impostos para os ricos.

E isso mostra, em resumo, o que aconteceu com o Partido Republicano e com os Estados Unidos.

Esta vem sendo uma eleição na qual, quase toda semana, alguma antiga norma da vida política americana é quebrada. Temos hoje um candidato de um grande partido que se recusa a mostrar sua declaração de renda, apesar das grandes dúvidas que pairam sobre seus negócios. Ele também vive repetindo falsidades, como a de que o crime atingiu níveis recorde (na verdade, está quase numa baixa histórica). E se confessa um predador sexual. Mas há muito, muito mais.

Trump durante intervalo de comício na Pensilvânia

Trump durante intervalo de comício na Pensilvânia

No passado, qualquer desses fatores bastaria para desqualificar um candidato à presidência. Mas hoje republicanos de alto escalão simplesmente dão de ombros. E comemoram quando o diretor do FBI, James Comey, quebra regras políticas para forçar a balança do equilíbrio eleitoral.

Se, apesar de tudo, Hillary Clinton vencer, eles já deixaram claro que tentarão bloquear qualquer indicação sua para a Suprema Corte. E até há no ar uma conversa sobre impeachment. Com base em quê? Eles encontrarão algo.

Como é que nossas normas políticas foram destruídas? Uma dica: tudo começou bem antes de Donald Trump. Por um lado, republicanos decidiram há muito tempo que vale tudo no esforço para deslegitimar e destruir democratas.

Os que se lembram dos anos 1990 também se lembrarão da infindável série de acusações levantadas contra os Clintons. Nada era implausível demais para chegar aos talk-shows de rádio, ao Congresso e à mídia conservadora: Hillary matou Vincent Foster! Bill é contrabandista de drogas!

Nada era superficial demais para desencadear audiências congressuais: 140 horas de depoimentos sobre abusos na lista de cartões de Natal da Casa Branca. E, claro, sete anos de investigações sobre um fracassado negócio de terras.

Quando Hillary deu a famosa declaração sobre “uma vasta conspiração de direita” para sabotar a presidência de seu marido, não estava sendo hiperbólica: simplesmente descrevia a óbvia realidade.

O efeito colateral da obsessiva perseguição a um presidente democrata foi a recusa taxativa em investigar mesmo as mais óbvias violações por parte de políticos republicanos.

Houve vários escândalos reais durante o governo de George W. Bush – do que pareceu um expurgo político no Departamento de Justiça às mentiras que nos levaram a invadir o Iraque. Ninguém nunca foi responsabilizado.

A erosão das normas continuou após o presidente Obama tomar posse. Ele sofreu obstruções de todos os lados; chantagem sobre o teto da dívida; e, agora, até a recusa de audiências sobre seu indicado a uma vaga na Suprema Corte.

Qual o propósito desse assalto às regras implícitas e entendimentos de que precisamos para fazer uma democracia funcionar? Bem, quando Newt Gingrich fechou o governo, em 1995, ele estava tentando – adivinhem! – privatizar o Medicare. A raiva contra Bill Clinton reflete em parte o fato de ele ter aumentado, moderadamente, impostos para os ricos.

Em outras palavras, líderes republicanos passaram as duas últimas décadas fazendo exatamente o que pessoas como Ryan estão fazendo hoje: pulverizar normas democráticas na busca de benefícios econômicos para seus doadores.

Assim, não deveríamos realmente nos surpreender com que Comey, que se mostrou mais republicano que servidor público, decidisse usar tão politicamente seu cargo às vésperas da eleição. Isso é o que os republicanos vêm fazendo sistematicamente. E também não deveríamos nos surpreender pelo fato de que todos os chocantes pecados de Trump não tenham levado a um rompimento com os líderes do establishment de seu partido: há muito eles decidiram que só os democratas dão escândalos.

Apesar do abuso de poder de Comey, Hillary provavelmente vai ganhar. Os republicanos, porém, não aceitarão isso. Quando Trump esbraveja sobre “eleições viciadas”, ele conta com a concordância do establishment de um partido que, fundamentalmente, nunca aceitou a legitimidade de um democrata na Casa Branca. Não importa o que Hillary faça, a barragem de falsos escândalos vai continuar, agora com pedidos de impeachment.

Há alguma coisa que se possa fazer para limitar o estrago? Ajudaria se a imprensa finalmente aprendesse a lição e parasse de tratar boatos republicanos como notícias verdadeiras. Também ajudaria se os democratas conquistassem o Senado, pois assim pelo menos se poderia governar um pouco. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA

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