Ted Cruz coloca em xeque unidade republicana e diz que não é ‘cachorrinho servil’ de Trump

Senador texano, que se recusou a declarar apoio a Donald Trump, rompeu na noite de quarta-feira com série de discursos favoráveis ao magnata, mas deixou aberta possibilidade de apoiá-lo futuramente

Redação Internacional

21 de julho de 2016 | 15h20

Cláudia Trevisan,
ENVIADA ESPECIAL / CLEVELAND / OHIO

CLEVELAND, OHIO – Depois de protagonizar o momento mais dramático da convenção republicana, Ted Cruz disse nesta quinta-feira, 21, que não é um “cachorrinho servil” de Donald Trump, candidato à presidência dos EUA. Derrotado pelo bilionário nas primárias, o senador texano se recusou a declarar apoio ao antigo adversário no discurso que fez aos delegados reunidos em Cleveland na noite de quarta, evidenciando as fraturas que ainda existem no partido a menos de quatro meses das eleições.

A divergência foi explicitada no palco da arena onde oradores se sucediam em elogios a Trump e na exaltação da unidade partidária contra a democrata Hillary Clinton. Cruz rompeu o rígido script com um pronunciamento de 21 minutos que parecia mais uma plataforma de campanha em favor de suas posições superconservadoras.

Segundo colocado nas primárias, o senador se dirigiu ao púlpito sob aplausos e o deixou sob vaias. Quando ficou claro que ele não declararia apoio ao candidato do partido, os delegados começaram a gritar “nós queremos Trump”. Pouco antes de Cruz concluir o discurso, o bilionário apareceu em um camarote do outro lado da arena, em uma tentativa de retomar o controle da convenção.

Mais longo que o da maioria dos oradores, o discurso de Cruz foi transmitido no horário nobre das TVs, que mostraram lado a lado sua imagem com a da entrada de Trump.

Sua recusa em declarar apoio ao candidato consagrado pelo partido revela que algumas das fissuras abertas durante a campanha continuam abertas. Durante a disputa, o bilionário se referia ao senador como “Ted mentiroso”. Também insinuou que o pai do então adversário teve participação na conspiração que levou ao assassinato do presidente John Kennedy e fez referências depreciativas à sua mulher. Trump retuitou um post que colocava a imagem de Heidi Cruz ao lado de uma da ex-modelo Melania Trump com a frase “uma foto diz mais do que mil palavras”.

Na quarta-feira, o senador usou a ofensiva do bilionário contra sua família para justificar sua decisão. “Eu não tenho o hábito de apoiar alguém que ataca minha mulher e ataca o meu pai”, disse em entrevista à rede ABC.

Trump respondeu ao discurso com uma mensagem em sua conta no Twitter, na qual acusou o senador de não honrar a promessa de apoiar o candidato vencedor nas primárias do partido. Na quinta-feira, Cruz afirmou que aquele compromisso não era ilimitado e teria sido colocado em xeque com os insultos de Trump a seus familiares. “Eu não vou, apesar disso, vir como um cachorrinho e dizer muito obrigada por difamar minha mulher e por difamar meu pai.”

A recusa em apoiar Trump também tem um cálculo político. Como muitos dentro do Partido Republicano, o senador já está com olhos na eleição presidencial de 2020, para a qual pretende se cacifar caso o bilionário perca para a democrata Hillary Clinton em novembro. Ainda assim, Cruz deixou aberta a possibilidade de vir a apoiar Trump. “Eu estou observando e ouvindo para tomar essa decisão”, afirmou. “A eleição não é hoje. O que eu não pretendo fazer é jogar pedras em Donald. Eu não pretendo criticá-lo.”

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